Fazer segundo a própria vontade é fazer diferente. Se a vontade é singular, consequentemente, também o é o fazer. O percurso inspirador — e decididamente muitíssimo inspirado — da violoncelista-compositora Tomeka Reid é fruto de uma volição distinta, que lhe consagra a rara capacidade de criar simultaneamente um jazz inventivo — na técnica, no conteúdo e na identidade — mas familiar — na forma, na transmissão e na recepção.

A experimentação e a busca pela franja sónica ainda não explorada constituem um eixo distintivo da sua música e dos seus quartetos — particularmente relevantes para este texto —, cujo tocar amiúde se afasta das cláusulas tradicionais do jazz através do uso de técnicas extensivas e da incorporação de linguagem não-idiomática na improvisação. As temáticas a que os temas aludem são igualmente visceralmente pessoais. No caso de dance! skip! hop!, por exemplo, a reconstrução do eu — em permanente processo de mutação dialéctica — faz-se no contacto com a raiz, com as origens: a avó e tia de Reid são homenageadas na capa do álbum, numa evocação que surge após uma experiência de reconexão com esses espaços afectivos. Poder-se-á sugerir, assim, que uma das facetas da música de Tomeka Reid se constrói num equilíbrio subtil entre pesquisa, memória íntima e evocação do subjectivo.

Por outro lado, o carácter familiar da música de Reid manifesta-se sobretudo no lugar de proximidade que esta é capaz de ocupar junto do ouvinte. A radicação do núcleo rítmico das suas composições numa vincada ideia de groove é uma dessas características. Outra reside na forte inclinação melódica da sua escrita, quer nos trechos narrativos quer nos momentos tautológicos, o que evita a alienação. Por fim, o modo desafectado e despretensioso com que o quarteto toca reforça esta ideia de comunicação privada, directa de banda para ouvinte, feita à medida das necessidades deste.

Para além de Tomeka Reid, o seu quarteto integra a guitarrista Mary Halvorson, o contrabaixista Jason Roebke e o baterista Tomas Fujiwara. A violoncelista de Chicago encontrou, assim, em Nova Iorque, dois vértices complementares — Halvorson e Fujiwara — fundamentais para a concretização das suas ideias. O álbum de estreia homónimo do quarteto foi editado em 2015 pela Thirsty Ear. Seguiu-se Old New, lançado em 2019 pela Cuneiform Records, e, mais recentemente, 3+3, que veio a público na Primavera de 2024, com chancela da mesma editora.

Desta vez, é a Out of Your Head Records, selo sediado em Richmond, VA, a responsável pela edição de dance! skip! hop!, um disco absolutamente sublime, moldado no mesmo registo de groove livre e improvisacional que caracteriza os trabalhos anteriores do quarteto. Acima de tudo, a coerência do disco é notável, tanto entre os vários temas como em relação à discografia anterior, revelando uma maturação de ideias deliciosa de ouvir. Mantendo elementos que já se tornaram característicos do grupo, os uníssonos entre Reid e Halvorson acentuam a importância da melodia; os grooves circulares lembram mares rodopiantes; e as improvisações deambulantes tanto se deixam levar pela estranheza como se mantêm próximas dos motivos temáticos. A guitarra frequentemente processada de Halvorson surge prolífica em momentos de enorme fulgor, sempre apoiada por uma secção rítmica dinâmica e expansiva, que Reid preenche ora com o arco, ora prescindindo dele, conferindo texturas e nuances ao discurso coletivo.

Há quem profetize que 2026 será o annus mirabilis de Tomeka Reid. Juntando este álbum ao já aqui recenseado Dream Archives, não há dúvida de que, pelo menos para a violoncelista, o ano começou com enorme fulgor e sinais claros de uma maturidade artística que continua a expandir-se em múltiplas direcções.