Estes arquivos quiméricos marcam a estreia de Craig Taborn em formato de trio. Nesta edição de 2026 da ECM Records, o pianista norte-americano junta-se à violoncelista Tomeka Reid e ao percussionista Ches Smith, que também se divide entre o vibrafone e as electrónicas — estas últimas alicerces de um eixo tímbrico definidor do disco. Taborn recorre igualmente às electrónicas, contribuindo, assim, para o notável carácter eletroacústico de Dream Archives.
Das seis peças do álbum, apenas a versão de “Mumbo Jumbo” de Paul Motian e principalmente a de “When Kabuya Dances” de Geri Allen – marcantes influências de Taborn – assumem formas mais concretas, chegando a apresentar, em alguns trechos, formatos reconhecíveis nos quais a exposição de motivos e suas variações se entrelaça com momentos de improvisação.
Tudo o resto habita o domínio do abstrato e das noções fragmentárias, o reino da lírica fugaz e das tensões harmónicas, o quadro das impressões noéticas e das sínteses aferentes incompletas. Esta sensação de inacabado, de música estilhaçada, evolui lentamente para uma geografia sónica intersticial, entre sonho e realidade: um espaço onde a racionalidade se mistura com a potência criadora da imaginação, simbolizada pelo plexo permanente entre a veia acústica e a artéria eletrónica.
Esta fusão eletroacústica serve, portanto, não apenas para ampliar a tessitura e a timbrística das peças, mas também para enriquecer o seu conteúdo simbólico. E, embora não seja a primeira vez que Taborn recorre a este tipo de instrumentação — como nos recorda Don Phipps na sua crítica a este disco —, talvez nunca ela tenha estado tão carregada de propósito e significado como neste álbum. Para o compreender, basta escutar com atenção temas como “Dream Archive” e “Enchant”, sublimes exemplos das atmosferas híbridas e planantes que este organismo modular triangular é capaz de fabricar; um organismo cuja sensibilidade artística transforma a mais pequena perturbação do silêncio numa poderosa faísca de criação.