Reedições de discos, edições de arquivo, obras subvalorizadas, álbuns antigos caídos no esquecimento. Trabalhos que o tempo deixou à margem, à espera de serem reencontrados. Álbuns seminais que pedem memória, escuta atenta e tempo. Num gesto antagónico ao mito de Pandora — onde a abertura da caixa liberta todos os males do mundo —, aqui abre-se a Caixa d’Outrora para libertar o que de melhor a música nos legou. Caixa d’Outrora, uma coluna de notas, escutas e pensamentos sobre álbuns que resistem ao desgaste do tempo e à voracidade do presente; um espaço contra o consumo rápido e a obsolescência musical programada pelo mercado musical contemporâneo.


Woody Shaw – Blackstone Legacy (Contemporary Records, 1971)

Blackstone Legacy não foi o primeiro álbum que Woody Shaw gravou enquanto líder de banda, mas foi o seu primeiro disco a ser publicado. Em 1971, tendo Shaw 26 anos – uma estreia algo tardia, dado que, por exemplo, Lee Morgan lançou Indeed! aos 16 –, a etiqueta da costa oeste norte-americana Contemporary, dando total liberdade criativa ao trompetista e compositor para a sua gravação, editou este brilhante trabalho que rivaliza – certamente mais em qualidade do que em popularidade – com os melhores álbuns de jazz de fusão que, na época, começaram a surgir.

Gravado em 1970, o mesmo ano em que foram lançados Bitches Brew de Miles Davis e Electric Byrd de Donald Byrd, Blackstone Legacy não se escuta tão fusionista como aqueles, sentindo-se aqui apenas uma tímida tendência do jazz para se inclinar para novas estéticas. Apesar disso, o facto de Shaw se ter movido mais lentamente – ainda que na mesma direção – do que Miles, Byrd ou Hubbard, fez com que neste Blackstone Legacy culminasse toda uma fervorosa biblioteca estilística que na década anterior havia sido aperfeiçoada no âmbito do post-bop, biblioteca essa da qual Shaw era não só extremamente versado, como também um virtuoso executante.

Com uma formação que inclui Ron Carter (contrabaixo), Bennie Maupin (saxofone tenor e clarinete baixo) e Gary Bartz (saxofone alto e saxofone soprano), à data recentes colaboradores de Miles Davis e aos quais se juntaram ainda George Cables (piano e teclas), Clint Houston (baixo elétrico) e Lenny White (bateria), não faltam neste Blackstone Legacy inspirados trechos de improvisação coletiva, quase sempre erigidos sobre a matriz expressionista do free jazz – da qual Shaw era um cultor, ou não tivesse sido mentorado por Eric Dolphy – e nos quais a eletrificação se assume, principalmente, como um eixo enriquecedor da paleta tímbrica (escute-se, por exemplo, “Lost and Found” e “New World”).

Social e politicamente engajado, Blackstone Legacy é tanto um arquétipo do pináculo do post-bop como uma amostra da inflexão que lhe seguiu. Num período de transição a nível global como aquele que se vive em 2026, não espanta, portanto, que esta obra se escute como profundamente atual.

Clifford Brown – The Complete Blue Note And Pacific Jazz Recordings (Mosaic Records, 1984)

Woody Shaw começou a tocar trompete no mesmo mês e ano em que Clifford Brown morreu, em junho de 1956, precocemente, com apenas 25 anos. Esta metafórica passagem de testemunho não poderia ser mais apropriada, já que Shaw viria a tornar-se um dos mais importantes trompetistas de jazz da segunda metade do século XX. E, se houve a mínima transmissão de swing entre Brown e Shaw, o bop desta coleção — que reúne as gravações do trompetista, pianista e compositor natural de Wilmington, Delaware, para a Blue Note e a Pacific Jazz — é prova viva de que o génio de Clifford Brown era mais do que suficiente para que pudesse transmitir parte do seu talento enquanto trompetista.

Encontram-se aqui algumas gravações essenciais. Por exemplo, a versão da balada “You Go To My Head”, parte das gravações do Lou Donaldson-Clifford Brown Quintet, realizadas em Nova Iorque em 1953; de “A Night in Tunisia”, pelo quinteto de Art Blakey, uma gravação ao vivo no Birdland, em 1954; e de “Cherokee”, gravada em 1953 com o Clifford Brown Sextet. Todas elas são pura delícia – puro bop, que prova que no peito de quem sabe ser smooth – e não só no dos desafinados – também bate um coração.

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