Cadernos de esquissos. Registos de sensações. Pergaminhos de sombras. Pensamentos subterrâneos. Alegorias inacabadas. Apontamentos de ideias soltas. Mini-ensaios, livres e fugazes. Pós-haikus absolvidos de estrutura. Explorações noéticas de imagens musicais. Impressões mítico-poéticas sobre som e forma. Em Cadernos do Underground, encontra-se em foco música de várias dimensões e polimorfias. Sem a elevação de Fiódor Dostoiévski nem a analítica de Theodor Adorno, é como se László Krasznahorkai ou Thomas Bernhard escrevessem ao ritmo de Jack Kerouac. Cadernos do Underground, uma coluna sobre heterodoxia musical.
Marcelo dos Reis & Gonçalo Almeida - Sideralis (Cipsela Records, 2025)
No início, um leve pulsar sistólico que lentamente consome o espaço à sua volta. Depois, surge o movimento das vibrações: ondas contínuas no tempo, modeladas a cada instante segundo a intuição cultivada no espaço de interação entre a guitarra de Marcelo dos Reis e o contrabaixo de Gonçalo Almeida. É o cultivo de uma linguagem comum: sobretudo textural, mas à qual está subjacente um melodismo rarefeito, inconstante e fragmentário; uma rítmica primordial, latejante e sugestora de uma direção no tempo. O uso dos artefactos serendipitosos do espaço e dos instrumentos — ecos, ressonâncias, reverberações — revela que, afinal, tudo em Sideralis é matéria sónica para expandir o vocabulário improvisacional não-idiomático que sustenta os quatro “andamentos” que compõem o disco.
Portanto, temos aqui matéria que é intencional e matéria que é espontânea, rapidamente incorporada no fluxo de ideias, numa síntese aferente de profunda sensibilidade. Fluxo esse que se aproxima de uma consciência ruminativa, obsessiva e circular; de um sentir a preto e branco, ocasionalmente contaminado por laivos de cromatismo — note-se, apenas leves pinceladas — demonstrativos de que, afinal, esta ainda é uma experiência térrea, embora comunicada a partir dos confins de Alpha Centauri.
O ranger do arco, a sépia da madeira e as cordas perfurantes: contrastes que aqui se unem, tal como o contrabaixo se une à guitarra num organismo singular, consubstanciado num corpo homogéneo que respira música viva e desafiante, que salta entre o planeta do terror e o planeta do etéreo, entre a cintura da negritude e o cometa do vapor.
Sideralis proporciona, assim, uma audição que se renova sempre, sendo difícil imaginar um disco melhor para celebrar a primeira década de vida da Cipsela Records, um dos melhores e mais bem guardados diamantes da música improvisada nacional.
Vasco Trilla & Luís Vicente - Ghost Strata (Cipsela Records, 2025)
Outra das edições do décimo aniversário da Cipsela Records é Ghost Strata, colaboração entre o percussionista luso-catalão Vasco Trilla e o trompetista Luis Vicente. Fantasmagórico na sua génese e sobrenatural na sua qualidade, este álbum escuta-se como uma infinita perturbação do silêncio — aqui “menos o limite absolute do discurso […] e mais um elemento que funciona em paralelo com o que é dito”, como escreveu Foucault —, em que o sopro de Vicente, cujo instrumento se sente verdadeiramente como uma extensão do corpo, serpenteia sobre o leito textural criado por Trilla, músico de amplos recursos técnicos e estilísticos.
Além disso, as proto-melodias aspiradas, resultado das múltiplas embocaduras sempre surpreendentes de Vicente, acentuam a sensação de improvisação constante e de tensão suspensa, categoria experiencial cujo território é mapeado detalhadamente nestas explorações espectrais, fonte infinita de momentos de fascinante improvisação entre dois músicos cujo vocabulário criativo é inegostável.
Ghost Strata é, portanto, um estrato fantasmal, é certo, mas, acima de tudo, uma etapa temática que se acrescenta à discografia de Vicente e Trilla, dupla que já havia, em 2019, lançado A Brighter Side of Darkness pela Clean Feed Records — um disco igualmente recomendável e que confirma, agora com este álbum, a permanente actualidade desta dupla no domínio da música improvisada.