Cadernos de esquissos. Registos de sensações. Pergaminhos de sombras. Pensamentos subterrâneos. Alegorias inacabadas. Apontamentos de ideias soltas. Mini-ensaios, livres e fugazes. Pós-haikus absolvidos de estrutura. Explorações noéticas de imagens musicais. Impressões mítico-poéticas sobre som e forma. Em Cadernos do Underground, encontra-se em foco música de várias dimensões e polimorfias. Sem a elevação de Fiódor Dostoiévski nem a analítica de Theodor Adorno, é como se László Krasznahorkai ou Thomas Bernhard escrevessem ao ritmo de Jack Kerouac. Cadernos do Underground, uma coluna sobre heterodoxia musical.


Hugo Danin - Sonologues (Now Jazz Agora, 2025)

“The only advice I would have would be not to listen to anyone, and to do what you love, and to make things that you love – whatever it is, make your favorite things!”

É com esta epígrafe, que promete uma boa dose de autenticidade, que o baterista portuense Hugo Danin levanta o pano sobre o seu mais recente álbum, Sonologues. Trata-se de um trabalho que reúne um conjunto de diálogos a dois com vários músicos notáveis do jazz nacional: João Barradas (acordeão), Sérgio Carolino (tuba), Francisco Sales (guitarras), AZAR AZAR (piano e teclados), Eduardo Cardinho (vibrafone) e Gileno Santana (trompete).

Com um baterismo que se afasta quer do swing jazzístico, quer da rítmica textural do jazz contemporâneo, Danin aborda estes duetos a partir de uma lógica que adapta breakbeats do hip-hop, garage, drum’n’bass ou dubstep a espaços sónicos onde estes não são habitualmente encontrados — pense-se, por exemplo, no que, no Reino Unido, nomes como Richard Spaven ou Moses Boyd têm vindo a fazer ao levar o jazz para o clube, afastando-o do tradicional auditório.

A forma extraordinária como Danin, ao longo dos vários temas, se adapta ao seu interlocutor — nunca deixando a conversa cair, graças a uma infindável biblioteca de grooves e polirritmias —, aliada ao facto de a audição do disco não deixar dúvidas de que estamos perante a materialização de uma ideia substancial e não de um mero conjunto de exercícios conceptuais, faz com que este álbum não soe apenas a uma tentativa de levar a instrumentação jazzística a novas geografias, mas sim ao gesto de trazer novos mundos para o jazz. É, portanto, com esta ambição concreta que Danin nos entrega Sonologues, um álbum que, apesar da parca instrumentação, apresenta uma narrativa sólida, capaz de criar discurso e com direito a belíssimos momentos sónicos, surgindo estes ora na coincidência entre a ressonância das peles da bateria e a frequência dos sintetizadores samplados, ora na conversa entre a percussão e as melodias, por vezes entrelaçadas em danças hipnóticas — ouça-se a maravilhosa “Popularities (feat. João Barradas)” —, outras vezes em sinergia groovica — por exemplo, em “Laid Feel (feat. AZAR AZAR)”.

É, portanto, graças a este ininterrupto e eclético fluxo musical que estes diálogos — expansivos, mas que se sentem paradoxalmente bastante íntimos — tornam este Sonologues num objecto singular no novo jazz português, com uma linguagem coesa e articulada, em grande parte baseada numa escuta mútua, e que no final deixa a sensação de termos presenciado uma conversa rara. Ai se todas as conversas fossem assim…

LANA GASPARØTTI - DIMENSIONS (Now Jazz Agora, 2025)

De ascendência croata, mas nascida em Lagos, Lana Gasparøtti apresentou, em 2025, o seu álbum de estreia, DIMENSIONS. Este é um trabalho que imediatamente a coloca como um nome a ter absolutamente em conta na cena nacional. Compositora, cantora e multi-instrumentista, Gasparøtti apresenta este disco como uma exploração radicada no campo de confluência entre a eletrónica e o acid jazz. Se BADBADNOTGOOD, Thundercat e DOMi & JD Beck surgem imediatamente como pontos de referência, a verdade é que, longe de se limitar a esta intersecção entre o jazz e a eletrónica ou de ser uma mera amálgama de afetações e influências, a substância de DIMENSIONS é muito mais vasta, podendo-se nela encontrar igualmente ecos de soul psicadélico, funk, hip-hop, entre outros. Enfim, nada é hermético na dinâmica de Gasparøtti, que se move com uma naturalidade impressionante entre estes diferentes campos sonoros, porventura sinal de um tempo que esbateu fronteiras estilísticas e procura, na sua mistura, um espaço de expressão próprio.

Sobretudo instrumental e ocasionalmente integrando vozes processadas, DIMENSIONS escuta-se como se a pista de dança invadisse a sala de estar, soando groovy na aritmética rítmica de temas como “Something in My Way”, “Dimensions” ou “Mar”, mas também fazendo a eletrónica planar sobre a gravidade da instrumentação acústica, por exemplo em “Feel”, uma incrível samplagem orgânica de Thundercat, que leva o ouvinte a passear por paisagens estelares. Cósmico e prospetivista na sua génese, não faltam a este DIMENSIONS argumentos para pôr o ouvinte num torvelinho de catadupas caleidoscópicas que não se esgota com repetidas audições. Este é, portanto, um trabalho interessantíssimo para o novo jazz português. Com uma dose extra de ousadia, Gasparøtti poderá muito bem vir a afirmar-se como figura referencial neste domínio estético, deixando-nos, por agora, ansiosos pelo próximo capítulo após este auspicioso começo de discografia.

SAMALANDRA - SAMALANDRA (Now Jazz Agora, 2025)

Os SAMALANDRA foram, por estas páginas, escolhidos como um dos grupos revelação de 2023. Formados por Débora King (voz, teclados e sintetizadores), João Atouguia Neves (bateria) e Tiago Martins (baixo e samples), são uma das melhores surpresas nascidas do seio da nova geração de músicos nacionais. Neste seu homónimo de estreia — uma reedição do seu EP de 2023, lançado apenas em formato digital, com direito a duas faixas bónus —, o trio mergulha nas eletrizantes águas do energy jazz, território musical onde jazz, eletrónica, glitches e groove se tornam substâncias miscíveis, capazes de convergir num composto homogéneo que muito tem marcado as estéticas contemporâneas.

Sob este prima, os temas deste trabalho são estilisticamente coesos: a rítmica de Neves é fluida, mas sempre cadenciada, por vezes convidando à dança; os teclados e sintetizadores de King escutam-se lisérgios e recheados de brilhantina harmónica modal; as linhas de baixo de Martins são sístoles pulsantes que marcam as etapas da viagem; as letras revitalizantes de um surrealismo poético, aqui sem qualquer pátina. A improvisação, essa, surge estruturada e funciona como porta para a exploração das várias paragens intergalácticas pelas quais se viaja ao longo da audição do álbum. Aliás, tudo aqui parece futurista — até à tomada de consciência de que o futuro é agora.

É o recurso a estes ingredientes que faz com que este SAMALANDRA continue, mesmo em 2026, fresco e viçoso — um espelho de um presente pleno de quiralidades, em que distorções ontológicas e vieses cognitivos não são apenas o reflexo de uma versão do real, mas a própria criação deste. Afinal, na era da Internet morta, enquanto a AI for “ARTIFICIÊNCIA INTELIGENCIAL”, estaremos a salvo.