Cadernos de esquissos. Registos de sensações. Pergaminhos de sombras. Pensamentos subterrâneos. Alegorias inacabadas. Apontamentos de ideias soltas. Mini-ensaios, livres e fugazes. Pós-haikus absolvidos de estrutura. Explorações noéticas de imagens musicais. Impressões mítico-poéticas sobre som e forma. Em Cadernos do Underground, encontra-se em foco música de várias dimensões e polimorfias. Sem a elevação de Fiódor Dostoiévski nem a analítica de Theodor Adorno, é como se László Krasznahorkai ou Thomas Bernhard escrevessem ao ritmo de Jack Kerouac. Cadernos do Underground, uma coluna sobre heterodoxia musical.


ANGELIKA NIESCIER with Jason Adasiewicz, Nicole Mitchell, Mike Reed, Dave Rempis and Luke Stewart - Chicago Tapes (Intakt Records, 2026)

Com uma voz pujante e distintiva no panorama do saxofone europeu contemporâneo, Angelika Niescier tem apostado com frequência em colaborações transatlânticas. Depois de álbuns gravados em parceria com músicos de destaque como Tomeka Reid, Savannah Harris ou Gerald Cleaver, em Chicago Tapes são Jason Adasiewicz (vibrafone), Nicole Mitchell (flauta), Mike Reed (bateria), Dave Rempis (saxofones alto e tenor) e Luke Stewart (contrabaixo) que dão vida às composições de Niescier, baseadas sobretudo numa mistura de escrita modular, notação gráfica e estruturas conceituais destinadas a facilitar a improvisação. As gravações decorreram em duas sessões de estúdio — cada uma envolvendo subgrupos dos músicos mencionados — realizadas em maio de 2025 em Chicago, Illinois, cidade onde estes músicos se encontram sediados.

Com uma estética de dissenso permanente — posta em ação graças à propulsão da secção rítmica, às harmonias planantes do vibrafone e às constantes diatribes perfurantes dos sopros —, em Chicago Tapes há pouco espaço para uma contemplação confortável dos acontecimentos, que se sucedem ininterruptamente como as dinâmicas caóticas da vida na urbe pós-moderna e obrigam a uma atenção plena, em detrimento de uma fruição desligada.

Assim, musicalmente, este álbum opera no limite do funcional, partindo em busca do desconhecido dentro dos aposentos contemporâneos do free jazz e da improvisação, criando uma cartografia sónica afetiva dos recentes humores da era Trump. Em “Great Horned Owl” insinua-se uma paranóia desconcertante; em “Rejoice, Disrupt, Resist” e “Bouncin’ the Ledge” manifesta-se uma força revolucionária; e em “Fluxed” e “E Randolph Street” instala-se uma tranquilidade insidiosa que desafia o ouvinte a confrontar-se com uma temporalidade musical instável. No total, o álbum soma cerca de uma hora, sendo concebido como um espaço crítico de experimentação, em que se testemunha uma profunda dialética entre o mundo e o jazz, jazz esse que aqui não é hermético — antes profundamente dialogante com os ares do tempo.

2026 arranca da melhor maneira para Angelika Niescier, com um álbum inspirado que abre portas a futuras colaborações entre a comunidade jazzística de Chicago e a saxofonista de Colónia.

Out of/Into - Motion II (Blue Note Records, 2025)

Cada vez mais, a Blue Note tornou-se numa etiqueta cuja estética polida remete para a arte do bem tocar, mais do que propriamente para uma dissidência e disrupção musicais que desafiem os cânones daquilo que atualmente se considera ser o jazz contemporâneo. É, portanto, profundamente discutível que este seja um álbum que “aponta para o futuro do jazz”, tal como referido pela própria editora. Pelo contrário, Motion II, álbum da autoria do quinteto de super-estrelas Out of/Into — formado por Gerald Clayton (piano), Immanuel Wilkins (saxofone alto), Joel Ross (vibrafone), Kendrick Scott (bateria) e Matt Brewer (contrabaixo) —, ouve-se mais como uma autoindulgente homenagem ao passado e ao presente da Blue Note do que como uma tentativa de fazer avançar o jazz em direção à próxima paragem.

Aliás, tendo este grupo sido formado por ocasião do 85º aniversário da Blue Note, encontra-se-lhe subjacente mais uma celebração narcísica do que uma materialização do ethos da editora — ou, pelo menos, daquilo que este ethos foi outrora —, dado que longínquos vão os tempos em que algo verdadeiramente inovador emergia desta etiqueta. Não que a Blue Note não apresente no seu catálogo alguns dos melhores músicos contemporâneos — a somar aos norte-americanos membros deste quinteto, pense-se, por exemplo, em extraordinários instrumentistas-compositores, quer de origem latina, como Melissa Aldana e Harold López-Nussa, quer europeus, como Julian Lage —, mas antes porque muitas das obras mais criativas destes músicos são lançadas fora do selo Blue Note (pense-se, a título de parco exemplo, nas — essas sim, apontando para o futuro do jazz — extraordinárias colaborações de Ross e Wilkins com Petter Eldh em 2025).

Quer pela categorização em termos de origem, em que a marca identitária funciona tanto como forma de distinção musical como como instrumento de segmentação de públicos-alvo, quer pela categorização estética em termos das facetas do jazz contempladas, tudo na Blue Note parace ser operado dentro de uma padronização institucional que neutraliza o potencial verdadeiramente transformador da música, muitas vezes apresentada como politicamente engajada, mas cujos limites residem na necessidade de os álbuns circularem confortavelmente no circuito institucional, nunca desafiando de forma radical o ouvinte, que se quer “culto e adulto”.

Assim, não obstante a qualidade técnica das interpretações e composições de Motion II, gravado em 2024, na mesma altura do primeiro volume da série — o álbum de estreia da banda —, a sua forma musical permanece previsível, ainda que sempre agradável, com improvisações seguras e estruturas familiares que, sendo aprazíveis, acabam por frustrar precisamente quem esperaria algo mais deste leque de músicos fenomenais. Em suma, uma banda com um potencial enorme que, infelizmente, parece ver-se obrigada a operar a um nível estritamente institucional.