Vasco Furtado / Salome Amend / Luise Volkmann – Aforismos

Um das características mais fascinantes da música improvisada é o facto de que apesar de não possuir uma (pré-)estrutura – estrutura que sempre se desenha em tempo real, independentemente de se tornar durante ou após o acto de improvisação inteligível ou não para os ouvintes e/ou próprios músicos –, tal precondição não acarreta consigo uma ausência de sentido. É por isso que quaisquer que sejam as influências, técnicas, dinâmicas ou ideias que confluam num qualquer acto de improvisação, sempre este pode ser aproximado através de um olhar adaptativo que requer uma transcendência nesse mesmo acto.

É certo que definir a verdadeira base canónica de um qualquer registo de música improvisada é difícil, senão impossível, dada a dificuldade de encontrar os exactos eixos musicais que melhor descrevem o espaço musical em análise. O que resta são apenas tentativas de estudo, mais ou menos exactas, que têm sempre como sustento uma determinada base musical, que se sobrepõe apenas em variável grau de exactidão à verdadeira base canónica do acto, nunca com esta coincidindo totalmente.

Definidos os eixos da base musical, é pois necessário recorrer a linguagem e pensamento apropriados para os descrever. A linguagem e pensamento formam, também eles, uma base própria que se sobrepõe em maior ou menor grau à base musical escolhida para aproximar a base musical canónica. Acredito cada vez mais que qualquer tentativa puramente positivista de descrição musical é insuficiente, pois reduz o acto de improvisação a uma narrativa de eventos de cariz matematico-dialéticos. Parece-me, então, que a verdadeira essência do acto de improvisação, essa, apenas pode ser aproximada através de pensamento alegórico e mítico-poético. Mas adiemos estas reflexões para momentos mais oportunos…

O sexto lançamento da Phonogram Unit resulta de uma reunião entre duas improvisadoras teutãs – Salome Amend (vibrafone) e Luise Volkmann (saxofone alto) –, e um improvisador português radicado na Alemanha, Vasco Furtado (bateria/percussão). Após haverem tocado juntos, ao vivo, num festival de música improvisada, o trio decidiu reunir-se novamente, após alguns meses, em Janeiro de 2021, para proceder à gravação de Aforismos.

Registando este disco um dos primeiros encontros do trio, é notável que nele já se sintam tão vincadas certas tendências musicais, as quais conferem a este trabalho uma identidade pronunciada, por isso em parte desvelável. Por oposição a modos de improvisar que se centram na explosividade e expressividade dos músicos (nada de errado, apenas um modo diferente de improvisar), em Aforismos sente-se uma clara preferência por música de contornos minimalistas e reducionistas. Não obstante, há também nesta música uma tentativa (lograda, diga-se) de construção de pontes entre free jazz e improvisação livre, que aqui surgem como dois polos unidos por um continuum musical (como é naturalmente expectável, aliás), do qual uma das muitas possíveis rotas comunicantes é explorada por Furtado, Almend e Volkmann.

Curiosamente, o tema de abertura, “Folk Song”, é o mais ritmado e melódico do disco, porventura por ser aquele que transversalmente apresenta uma faceta de jazzística livre mais acentuada. O resto do álbum desenvolve-se por momentos musicais de baixa saturação sónica, em que há espaço para que a música viva e respire por entre o silêncio – abordagem que realça as nuances e gradações não-lineares que cada instrumentista impõe à música -, que são contrapostos a ataques de grande intensidade, amiúde caracterizados por repetição de motivos sónicos. “Mechanismus” e “Intuitions” são dois exemplos notáveis desta dialética entre improvisação livre e jazz, aquela sempre muito próxima da música reducionista da Echtzeitmusik berlinense, e este inspirado em um certo free jazz tanto esparso como intenso, tanto próximo de alguns discos do trio de Schlippenbach como da ininterrupta agressividade musical de Peter Brötzmann ou da Globe Unity Orchestra. “Mechanismus”, por exemplo, vive de um ténue equilíbrio entre os três instrumentistas, que tocam a baixo volume e espaçadamente, culminando numa coda em crescendo de intensidade, que propele o grupo para um segmento de elevada tensão musical. Já em “Intuitions” – uma fascinante peça de ca. 28 minutos -, há alternância entre ambos os registos: ora o trio se refreia, reduzindo-se ao metabolismo basal que o mantém vivo, ora o trio se expande, movendo-se de forma difusa mas não-Browniana, convertendo energia potencial em cinética.

Por fim, “Luft and Boden” e “Long Way Home” terminam o disco com dinâmicas que estendem aquelas já anteriormente descritas, nas quais o trio explora novas possibilidades de concretização, dá diferentes formas à música, utiliza objectos (escutam-se, e.g., bolas de pingue-pongue a ressaltarem), enfatiza novas gestualidades, e dá vida ao aforismo escolástico corruptio unius, generatio alterius, ciclicamente alternando entre improvisação reducionista e jazz livre e desenvolto. Escusado será dizer que estamos perante um trabalho interessantíssimo – a brevidade típica do aforismo é sacrificada, mas o trio serve-se disso para revelar uma via musical de grandeza maior.