Cadernos do Underground #1

Cadernos de esquissos. Registos de sensações. Pergaminhos de sombras. Pensamentos subterrâneos. Alegorias inacabadas. Apontamentos de ideias soltas. Mini-ensaios, livres e fugazes. Pós-haikus absolvidos de estrutura. Explorações noéticas de imagens musicais. Impressões mítico-poéticas sobre som e forma. Em Cadernos do Underground, encontra-se em foco música de várias dimensões e polimorfias. Sem a elevação de Fiódor Dostoiévski nem a analítica de Theodor Adorno, é como se László Krasznahorkai ou Thomas Bernhard escrevessem ao ritmo de Jack Kerouac. Cadernos do Underground, uma coluna sobre heterodoxia musical.


Nuno Veiga – Contraluz (Nariz Entupido, 2020)

Nuno Veiga é um artista multidisciplinar, professor, performer e sound designer, com vasto currículo desenvolvido na área do teatro. Como músico, tem estado envolvido em vários projectos centrados em improvisação, tais como NoiD, Cojones Spirituales, Ar|ra, e Fuck Popox2. Em Contraluz, Veiga une a sua vertente de improvisador à sua experiência e formação em teatro para dar forma a um álbum que se encontra submerso numa visceral carga cénica: escutam-se paisagens e ambientes sónicos cuidadosamente esculpidos com recurso a sons não-convencionais que habitualmente encontram-se guardados na gaveta da música experimental e avant-garde.

Neste que é o seu primeiro álbum desde que regressou a Portugal depois de quase uma década a viver na capital inglesa, Nuno Veiga criou, então, uma obra de contornos cinematográficos, que constitui um autêntico audiofilm. Em cada tema, o ouvinte é transportado para uma cena distinta, ora dramática e trágica (e.g., “Mugre”, o tema superlativo deste trabalho, um “requiem” enriquecido pela maravilhosa interpretação vocal de Kate Smith), ora puramente atmosférica e textural. As paisagens sonoras criadas são ricas em drones, ruídos, trepidações, vibrações, e rugosidades – mantos ondulatórios que aguçam os sentidos e estimulam a imaginação -, assim como em murmúrios, vociferações e spoken word. E se há nesta obra uma aura negra e tétrica que a trespassa, há também nela espaço para uma réstia de luz, ainda que esta luz seja apenas remanescente, subseciva. Afinal, se são sombras que aqui se escutam, são estas projecções de uma bruxuleante fonte luminosa, positiva, que tanto emana raios de esperança como de redenção. Para usufruir da experiência, o melhor mesmo é colocar os auscultadores, fechar os olhos, e seguir viagem…

Bendik Giske – Cracks (Smalltown Supersound, 2021) 

Cracks é o segundo trabalho de 2021 do saxofonista norueguês residente em Berlim Bendik Giske, seguindo-se a Untitled, o qual foi criado em colaboração com Pavel Milyakov. Cracks é também o segundo longa-duração deste músico e performer queer, que, em 2019, já havia lançado Surrender, registo no qual desvelou as primeiras pistas sobre uma ideia de música que tanto vem do alto da via láctea como das catacumbas do Berghain. A música de Cracks é labiríntica, tautológica e palimpséstica. Bendik Giske aborda o mesmo ponto sob vários ângulos – e fá-lo repetidamente. Em jeito de hipnose auto-induzida ou claustrofóbica meditação, o que se escuta é essencialmente movimento, physis. É música que é corpo, e corpo que é música. Monismo corpo-música, se se quiser. É movimento trémulo e ansioso, espontâneo e hiper-expressivo. É vulnerabilidade e ansiedade, dor e paixão. E tudo isto encontra-se envolto por uma dimensão adicional, na qual a electrónica, a cargo do produtor André Bratten, desempenha um papel aglutinador. O próprio espaço do estúdio, fonte dos ecos e angulares reverberações que por aqui se escutam, é usado como instrumento. Significa isto que o acto de gravação é captado na sua unicidade, resultando em sonorização imersiva de audição recomendada.

LI YILEI – 之 / OF (Metron Records, 2021)

Radicada em Londres, cidade onde tem desenvolvido trabalho como músicx e performer, LI YILEI, que nasceu na China, lançou, em 2021, o seu segundo LP, 之 / OF, um estudo horológico que se foca na “relação temporal entre a experiência e o meio envolvente”.之 / OF é um álbum de grande sensibilidade musical – LI YILE tem Asperger -, que mescla elementos orgânicos e sintéticos, havendo sido composto com recurso a sintetizadores analógicos, vozes, field recordings e instrumentos de cordas. O resultado é música electroacústica, hiper-sensível e minimalista, em que todos os elementos sonoros exercem um papel vital, informativo, encontrando-se sempre milimetricamente sincronizados para gerar uma sinfónica harmonia de formas, cor e movimento. Escutar 之 / OF é como passear pela natureza com amplificadores sensoriais, em pleno estado de presença, observando e registando meticulosamente os mais ínfimos pormenores que tornam a realidade naquilo que ela é. É uma viagem psicadélica, não em termos musicais, mas no sentido daquilo que é verdadeiramente uma experiência psicadélica. E é precisamente este uso de referências sonoras do quotidiano que torna este álbum especial: todos as ouvimos, mas nem todos transcendemos na sua essência. É por isso que a forma como LI YILEI usa estes sons como matéria-prima para a criação dos 12 poemas electroacústicos que aqui se escutam é de uma mestria extraordinária, reveladora de uma refinada visão artística que penetra o real na sua plenitude. O tempo só é, porque o real se move. LI YILEI percebeu-o bem.