Fred Longberg-Holm, Abdul Moimême, Carlos Santos – Transition Zone

Trio de improvisadores de fino gabarito, Fred Longberg-Holm (violoncelo e electrónica), Abdul Moimême (duas guitarras eléctricas, tocadas em simultâneo, e objectos) e Carlos Santos (computador, sintetizador) reuniram-se, em 2018, no estúdio Namouche, para gravar mais de uma hora de música livre criada em plena zona de transição, a qual se viu editada pela Creative Sources, em 2021. Mas que zona interfacial é esta, especificamente, por onde o trio se move? Dir-se-á que é uma região na qual se sobrepõem imagens ultra-realistas – o industrialismo vigente, a mecanicidade do som, e a música sintética são características que referenciam uma sociedade ultra-industrializada – e imagens de distopia pós-surrealista, no sentido de que o surreal já se sobrepôs ao real, o ponto de não-retorno foi ultrapassado, e a humanidade, agora já pós-humana, humanoide, para se ser preciso, com as máquinas se intenta a tornar una, pois essa é sua última tábua de salvação.  

Mas esta não é uma conversão total de homem em máquina nem de máquina em homem nem de perfeita comunhão homem-máquina. Há aqui sempre uma réstia de elemento humano que ora domina ora é dominado. Afinal, tal como escreveu Olga Ravn, “porventura os humanos sejam esse mesmo elemento de caos que mantém o mundo vivo.” É este caos, portanto, que torna impossível que se estabeleça um absoluto equilíbrio em Transition Zone. Trata-se, então, de um quasi-equilíbrio entre o orgânico e o sintético, entrevisto como inatingível limite, dado que esta é música profundamente imbuída em tensão, tonos, a verdadeira força-motriz deste acto, que se encontra em constante devir ao longo dos 5 movimentos que o constituem.  

A electrónica de Carlos Santos é aquosa, borbulhante, granular, ululante e espacial. O violoncelo de Fred Longberg-Holm é prevalecentemente tocado recorrendo a técnicas estendidas, ora soando áspero, rugoso e ácido, ora produzindo cicios e rumorejos. As guitarras e objectos de Abdul Moimême são mananciais de texturas e ambiências cénicas, autênticas sonorizações pictóricas, resultantes de um domínio total da modelação de som proveniente de fontes não-convencionais. O trio forma, assim, três campos ondulatórios que se encontram em permanente interacção, interferindo ora construtiva ora destrutivamente para gerar esta cápsula eletroacústica. E mesmo quando após 3 actos de convulsão, em “Ring”, parece-se conseguir temporariamente anular o elemento caótico, logo em “Blister” este regressa, pondo a locomotiva a funcionar a todo o vapor, propulsionando-a para mais 15 de minutos de brilhante improvisação que coroam um trabalho que só pode merecer palavras de encómio.