Sexteto Bernardo Moreira – Entre Paredes

Entre Paredes é o último álbum lançado pela editora da associação cultural Jazz ao Centro Clube (JACC), o qual inaugura uma nova série do catálogo da chancela conimbricense, denominada TERRA, dedicada a trabalhos interseccionais, onde o jazz se cruza tanto com a música tradicional portuguesa como com a música proveniente de outros países lusófonos. O trabalho é da autoria do sexteto liderado pelo contrabaixista Bernardo Moreira, que aqui se junta a seu irmão João Moreira (trompete), além de a Tomás Marques (saxofone alto), Mário Delgado (guitarra), Ricardo J. Dias (piano) e Joel Silva (bateria). Ora, este é um álbum onde, à semelhança do que havia feito 19 anos antes, em Ao Paredes Confesso, Bernardo Moreira se propõe a dialogar com a música de Carlos Paredes, visitando também, brevemente, composições de outros autores portugueses, como Ricardo Dias (“Navio Triste”) e José Afonso (“A Morte Saiu à Rua”).  

Desengana-se quem pense que o Sexteto Bernardo Moreira limita ou empareda a música original, na qual se baseia este Entre Paredes, a uma mera leitura literal sob a égide do jazz. Pelo contrário, as fronteiras, geográficas, por um lado, mas de uma geografia imanente às fronteiras musicais que definem aquilo a que se denomina como música portuguesa, são aqui totalmente derrubadas, pois a Portugalidade, nesta confinada, é dissolvida numa pan-musicalidade, de carácter universal, tanto compreendida por portugueses como por estrangeiros. Perceba-se que é certo que, neste encontro, quem conheça os originais que são reinventados possa ter uma “vantagem” de familiaridade e intimidade, mas esta não é, de forma alguma, uma condição necessária para a sua fruição, facto do qual decorre a universalidade da comunicação que aqui é encetada. Por outro lado, as fronteiras da música, que, já de si, é universal, são, paradoxalmente ao seu esbatimento, redefinidas através do “dialecto” usado para a comunicar: os eixos da guitarra portuguesa, do fado e da música popular são deslocados para uma tradição jazzística que, à partida, não os continha, constituindo, por isso, uma verdadeira mudança de base, onde o estilo canónico da narração é agora reimaginado segundo uma nova “voz”, novos instrumentos e novas técnicas. A espinha dorsal das composições é retida, mas o corpo que a envolve é desenhado a propósito. E que belo ele se demonstra, pois os arranjos construídos sobre a matriz-base deste Entre Paredes são de uma acutilância tocante, comovente, até, conseguindo, inclusive, expandir o conteúdo emocional, já de si bastante denso, das versões originais. Carlos Paredes será sempre Carlos Paredes, eterno, definitivo, absoluto. Com ele dialogar é, pois, não só manter viva a sua obra, tradição e legado, como também aumentá-los segundo os desígnios e modelos da hodiernidade. E este Sexteto Bernardo Moreira fá-lo impecavelmente – aliás, fá-lo como ninguém.  

A ambiência que desde logo é apresentada em “António Marinheiro” define uma atmosfera que é transversal ao disco: escuta-se um sexteto de papeis definidos, criador de uma sonoridade límpida, reverberante, que deve o seu timbre não só à acção solta e intencionada dos instrumentistas, mas também à acústica da sala que certeiramente foi escolhida para proceder à sua gravação: o Convento São Francisco, em Coimbra. Essa mesma definição sonora permite, portanto, que cada um dos seis elementos ganhe um relevância própria, singularizada, que lhes confere um sentido funcional preciso quando se trata de tocar colectivamente: os sopros apresentam-se frequentemente em homofonia, sendo ora overtones, sombras da tonalidade em curso, ora definindo a própria melodia; já a secção rítmica é sólida e sóbria, contida quanto baste, em hybris quando tal é necessário, amiúde em consonância com a dimensão melódico-harmónica dos temas, entregue em primeiro plano pelo piano e de modo mais recatado pela guitarra, que se faz notar quando surge. Paralelamente a esta dinâmica colectiva, há também espaço para queentre paredes” de contínuo temático emerjam solos sustentados pelos restantes instrumentistas, que se resguardam para protagonismo dar ao companheiro em foco. O de João Moreira em “António Marinheiro” é assinalável, com o trompete a estalar, definhando de emoção, abafado por surdina, agarrando-se à vida tanto quanto pode, numa poética à qual não se fica indiferente. Mas há, neste álbum, outros notáveis “monólogos”: refira-se, por exemplo, o de Tomás Marques em “Mudar de Vida”, o de Mário Delgado em “Canto de Amor”, os de Joel Silva e Ricardo J. Dias em “A Morte Saiu à Rua”, ou o de Bernardo Moreira em “Serenata no Tejo”. 

E é com esta dinâmica e cinética que o sexteto segue em “Mudar de Vida” e “Canto de Amor”. Ponto alto do disco é o tema “Verdes Anos”, revisitado em duo para trompete e piano, duo esse que capta em pleno o âmago do original de Paredes, adicionando-lhe uma vertente mágica, onírica e etérea. O momento de inflexão segue-se à faixa “Navio Triste”: se até aqui os temas estavam envolvidos numa aura de mistério, tristeza, melancolia e saudosismo, pós-“Navio Triste” o grupo segue uma trajectória ascendente no que toca à cor e energia, começando logo em “A Morte Saiu à Rua” e que continua nos temas “Serenata no Tejo” e “Canto do Amanhecer”. Depois da tempestade, vem a bonança, e é, então, em tom festivo e de comemoração que se desenvolve o último terço do disco.  

Conimbricenses certamente que ouvirão nesta música um amigo próximo, uma voz familiar. Contudo, a sua génese é real e verdadeiramente ecuménica. É música sem elitismos, apenas feita com recurso ao bom gosto, para tudo e para todos, e que certamente sobreviverá no tempo. Em notas de apresentação, é dito que este trabalho pontua uma “conclusão” neste diálogo entre Bernardo Moreira e a música de Carlos Paredes. Se assim o é, que possa haver futuros corolários.