Nazaré da Silva – Gingko

A cantora lisboeta Nazaré da Silva recentemente estreou-se como líder de banda com Gingko, álbum em que, além de partilhar a sua maravilhosa voz, encontram-se reunidos temas com composições e letras da sua autoria. Créditos de poética são pontualmente atribuídos a Irene Lisboa e João Paulo Esteves da Silva, que também assina uma das composições do disco, juntando-se este, assim, a uma outra compositora inusitada, Gingko, a gata de Nazaré da Silva, que dá nome ao álbum e a quem é atribuído um papel fundamental para a sua criação num plano inspiracional. O grupo de músicos escolhido para este trabalho é formado por João Almeida (trompete), Bernardo Tinoco (saxofone tenor), Zé Almeida (contrabaixo) e Samuel Dias (bateria), todos eles jovens que têm vindo a firmar solidamente a sua “voz” em diversos vértices do jazz nacional, tendo partilhado com Nazaré da Silva parte do percurso formativo na música, experiência colectiva que confere a Gingko uma atmosfera especial, repleta de química e de notável entrosamento.  

Editado pela discográfica Robalo, Gingko é, então, um trabalho que ganha densidade e profundidade com repetidas audições. No entanto, a sua cor – ou, por vezes, o distanciamento desta, que ocorre nos temas de maior soturnidade – é evidente a uma primeira e desprendida escuta. Nazaré da Silva pinta em tons sóbrios, discretos mas elegantes, que criam uma atmosfera aconchegante e reconfortante, em leve contraste com o conteúdo simbólico das letras, o qual transparece uma maior vitalidade e potência tanto em relação ao real como ao imaginário da cantora. Deste modo, metaforicamente, é como se nome e adjectivo caminhassem paralelamente em ténue, mas não negligenciável tensão, qual relação dialética entre música e palavra. Outra característica de Gingko que prontamente se assoma é a sua despretensão em relação a uma histriónica complexidade musical. Certamente que este não é um trabalho de música minimalista, mas há aqui uma clara redução da música imaginada aos princípios basilares que lhe são imprescindíveis. Quando concebeu este disco, Nazaré da Silva percebeu perfeitamente que a simplicidade também é uma mais-valia, optando por não sobrecarregar os temas com estilismos desnecessários. Deste modo, em Gingko, há espaço para a voz, para as letras, para os instrumentos, para a música. Respiramos, ouvimos, e incorporamos o que ouvimos. Repetimos o processo. Há vida – e espaço para que ela exista –, e isso é Tudo. 

Depois de uma breve declaração de intenções em “Gingko”, feita à luz da voz e do contrabaixo, “Tristo” apresenta uma narrativa melódica definida, com a secção rítmica a tocar suave e espaçadamente, e os sopros a surgirem em permanente sobreposição. A voz de Nazaré avisa-nos: “não demores a surgir que um dia não surges não”. Reflectimos. Voltamos ao tema já em atmosfera de improvisação colectiva, onde o contrabaixo de Zé Almeida, a princípio, é protagonista, seguindo-se-lhe em lugar o trompete de João Almeida, que resgata o motivo melódico do tema para com ele vogar até outros continentes, sempre acompanhado por todos os elementos do quinteto, voz inclusive, a qual em momentos de improvisação assume um registo que se cruza com as tendências do jazz vocal contemporâneo. De seguida, entramos em passo lento “Na prisão das laranjas”, lugar onde “angústias secam nos estendais”. Falamos de música que cresce longitudinalmente, como um amanhecer acoplado a movimento, totalizando-se em mais uma improvisação colectiva, cheia de força de vida, momento de libertação e plenitude, que delicadamente se liga à narrativa que o despoletou, terminando em clima de serenidade. “Canção sem jardim” emana uma alegria vivaz e bem-humorada. À semelhança das músicas anteriores, esta é também construída segundo uma estrutura “head-solos-head”, na qual, desta feita, as improvisações contam com momentos inspirados de Nazaré da Silva e Bernardo Tinoco. “Lisboa, 1936” é porventura o mais soturno e experimental dos temas. Baseado num poema de Irene Lisboa, a música aqui ganha contornos surrealistas, quebrando com o registo suave e harmonioso que até aqui tinha sido a regra. Assim, o quinteto aventura-se por abstracções e desconstruções que revelam uma faceta musical muito interessante, principalmente por se encontrar inserida entre temas nos quais as improvisações não assumem o carácter integralmente livre que aqui se escuta. Por fim, depois de um interlúdio que reestabelece a ordem, o álbum termina com “Um Nome”, faixa tocada em trio, com Nazaré da Silva em primeiro plano a dar voz a um poema melódico, sendo acompanhada pela secção rítmica que pontua a melodia em momentos-chave.  

Não há como não sentir, quando a viagem chega ao fim, que a aterragem foi bem-sucedida. Gingko, apesar de ser uma estreia, provém de um imaginário musical claramente rico e intencionado. Há aqui uma ligação a algo mais transversal, a uma ontologia partilhada, a uma verdade comum que se sente, mas não se percebe. Talvez seja esse um absoluto estético que aqui se vê “reproduzido” subjectivamente. Talvez não. O belo é Nazaré da Silva conseguir transpor esse espírito imaterial para uma dimensão concreta – e fá-lo com um assinável sentido e maturidade musicais. Um álbum para se apreciar com curiosidade e atenção.