João Lencastre’s Communion – Unlimited Dreams

As expectativas são sempre elevadas quando se trata de ensembles alargados, com possibilita aumentadas, e que, devido a isso, podem originar música de interessante complexidade, dificilmente produzida mesmo por formações assim não tão modestas como quartetos ou quintetos. Ora, o ensemble do qual o baterista e compositor João Lencastre é líder responde ao nome Communion, sendo agora composto por oito formidáveis músicos nacionais e internacionais, entres os quais se encontram Albert Cirera, nos saxofones tenor e soprano, Ricardo Toscano, no saxofone alto, Benny Lackner, no piano e electrónica, André Fernandes, na guitarra eléctrica, Pedro Branco, também na guitarra eléctrica, João Hasselberg, no baixo eléctrico e electrónica, e Nelson Cascais, no contrabaixo. Unlimited Dreams é o título do trabalho deste octeto, o qual será lançado a 15 de Outubro pela portuguesa Clean Feed Records.

Composto por seis faixas, o álbum reúne composições de João Lencastre, músico que já havia explorado uma pequena parte das ideias agora apresentadas no antecessor deste disco, de seu nome No Gravity, em que a electrónica tinha surgido como um elemento de extensão da linguagem jazzística. Porém, a dimensão de Unlimited Dreams ultrapassa em grande medida a da simples incorporação da electrónica no jazz, com Lencastre a compor para uma palete tímbrica diversificada que tanto oferece os sons da acústica como os da instrumentação eléctrica. Esta ampla gama de recursos disponíveis permitiu que o músico lisboeta criasse música com várias camadas, em constante comunicação, que amiúde entram em tensão e confronto, provocando instabilidades que contribuem para o seu desenvolvimento e que, não sendo sempre resolvidas, captam a atenção do ouvinte, como se de uma cena de um thriller ou filme de acção se tratassem. O propósito narrativo dos temas, esse, é também definido, não sendo estes meras explorações de possibilidades, antes propostas com intenções concretas e sequências lógicas. Existe um princípio, um meio, e um fim, matriz estrutural que faz deste um álbum sólido que se resolve em si mesmo. Não quer isto dizer que não haja hipóteses que sejam levantadas e deixadas em aberto, antes que estas são claramente definidas pelos seus interlocutores. Há, por isso, um sentido, uma direcção, um logos. Será, portanto, evidente que Lencastre criou as condições ideias para que neste Unlimited Dreams confluam jazz e improvisação, e que estes sabores sejam intensificados pelos falares do rock, do noise e da electrónica. Que mais poderíamos pedir? A verdade é que são sonhos ilimitados os que aqui ouvimos, não lhes fazendo jus a linguagem limitada disponível para os descrever.

O álbum abre debaixo de nuvens, com “Clouds”, levantando-se o octeto lentamente da dormência em que se encontra através de um acordar que atinge o paroxismo quando os sopros finalmente se erguem da neblina, em homofonia, desencadeando, então, fugas furtivas de instrumentos individuais, as quais se tornam generalizadas e rompem com a ordem para gerar caos e dissonância até à destruição, qual Sodoma e Gomorra que, devastada pela indecência, é reduzida a cinzas pelo fogo, aqui simbolizadas pela electrónica, vacilante, prova restante de uma existência anterior. “Insomnia” começa por nos revelar contornos rítmicos emprestados do rock, com os sopros a surgirem novamente em uníssono, sendo segurados por um ostinato protagonizado pelo trio bateria-piano-(contra)baixo – quase sempre aquele que segura a base harmónica e rítmica dos temas – que se prolonga ao longo da primeira parte da composição. Esta desenvolve-se por um solo de saxofone que, a certo ponto, se entrelaça com a guitarra, transitando assim o octeto para um estado musical amorfo, dado ao noise e à experimentação, apenas ancorado em terra pela inexorável insistência do baixo eléctrico. Ultrapassada a discórdia, a coda surge novamente con fuoco, sendo agora o ostinato inicial aproveitado para um solo de guitarra. Em “The Mystery Path” caminhamos por azinhagas sombrias, numa entrada impressionista que pinta tons de mistério e suspense com notas soltas de guitarra, reverberantes, sopros em legato e percussão simbólica. Depois de várias ameaças, o octeto entra definitivamente em espiral: o piano toca em rodopio, o baixo avança mono-tonal mas majestoso, e a percussão apresenta-se tempestuosa. Escutam-se lamentos de sax que impelem a uma queda e reconversão: o impressionismo torna-se agora expressionismo, as cores avivam-se, e as inteções emocionais são desveladas. Desce-se, por fim, a terra firme em diminuendo, apenas sobrevivendo as rezas do piano. “Mitote” é faixa curta mas contundente: em três minutos, partindo da anarquia, os instrumentos alinham-se para um épico final, cavalgado sem rédeas. “No Filter”, apesar de ter praticamente oito minutos, só se resolve nos últimos dois. Até lá, é construção e destruição, qual tortuosa aproximação ao centro do labirinto, qual puzzle de difícil resolução. A resposta final surge, no entanto, clarividente, como se de um momento de descoberta súbita e triunfante se tratasse. Por fim, o álbum termina com o tema homónimo, “Unlimited Dreams”, um dos melhores do disco e que serve de síntese a um brilhante trabalho. As hipóteses anteriormente levantadas são aqui, em conjunto, revisitadas, dando forma a uma composição totalizante que coroa um disco de excelência.

A “fórmula” encontrada por João Lencastre em Unlimited Dreams é de riqueza perentória. Não só o músico resolveu este álbum em si mesmo, não deixando nada ou pouco por dizer, como também criou as bases para futuros trabalhos, dado o potencial latente presente numa formação desta tipologia. Escusado será dizer que Unlimited Dreams é um dos grandes discos de jazz nacional de 2021. As ideias de composição são sólidas, as interpretações muitíssimo bem executadas, e o resultado final profundamente satisfatório, transparecendo não só a grandeza e a força que um ensemble desta dimensão tem de ter, como também a originalidade e criatividade patentes nas ideias musicais. Se não for pedir muito, que venha o próximo!