ABS apresenta 2020: “Este é o meu primeiro trabalho em que me vejo como um compositor”

ABS, nome artístico de Afonso Boucinha Silva, recentemente trouxe a público o seu álbum de estreia, 2020, um trabalho curto, mas revelador de uma interessante visão musical e uma apurada sensibilidade estética. Estudante de licenciatura em Saxofone Jazz na ESMAE, no Porto, ABS, neste registo, põe de lado, em grande medida, o seu instrumento principal – o saxofone – para desenhar geografias traçadas a electrónica, altamente frescas, imprevisíveis e que constantemente desafiam o ouvinte em várias dimensões.

Esta resvalo estilístico para os sons computorizadas foi, contudo, “uma divergência que ocorreu naturalmente”. Apesar dos contornos futuristas do arco sónico construído em 2020, o álbum soa altamente orgânico, tal qual uma unidade indissociável e perene que, aqui, finalmente, se viu materializada.

E se as ideias digitais de ABS são válidas por si mesmas, quando traz a acústica (modelada por efeitos) do saxofone a jogo, mesmo que inconscientemente, estabelece pontes temporais entre o passado e o presente, colocando-se, então, ao lado, em termos conceptuais, da mais vanguardista linhagem de saxofonistas da actualidade.

Com uma discografia que começou com o pé direito, ABS é, assim, um nome para se memorizar.


Quais as ideias que estão na base de 2020? Quais os motivos que levaram à sua criação? 

Acho que um dos sonhos de qualquer músico é ver as suas criações ganharem forma e serem expostas ao público, ter um álbum da minha autoria é certamente um sonho meu, agora concretizado. 2020 foi uma ideia que tive em 2020 durante a quarentena. Foi este tempo livre que me deu a oportunidade de sentar em frente ao computador e explorar diversas ferramentas, permitindo-me fazer esta música. Este álbum não tem nenhuma ideia base específica, apenas a liberdade criativa e experimentalista que nele aflora, assim, fui juntando ideias e trabalhando-as cada vez mais, aos poucos permitiu-me ver a obra crescer. Apesar de não ter definido desde o início um projeto desta natureza, a ideia de um álbum ia surgindo de forma espontânea e gradual. 

Fala-nos um pouco sobre o teu percurso musical. Como surgiu a ligação à música e qual o papel que, no presente, esta tem na tua vida? 

Comecei o meu percurso musical com os meus pais e o meu irmão a motivarem-me para tal, tive aulas na escola da Banda de Música de Loureiro e no ano seguinte entrei para o Orfeão de Ovar, no ensino articulado. Até esse ponto levava a música de uma forma mais leve e só quando fui para a escola Art’J é que comecei a olhar de forma mais séria como um futuro para mim, de momento estou a tirar a licenciatura em Saxofone Jazz na ESMAE, no Porto. A música hoje em dia tem um lugar muito especial e importante na minha vida, quero construir uma carreira com ela, reconheço o desafio que isto implica e aceito-o! 

Apesar do saxofone ser o teu instrumento principal, acabou por assumir um papel menor neste trabalho, no qual a electrónica é notoriamente a protagonista. Como se deu a transição para uma abordagem maioritariamente não-acústica e menos susceptível à interacção mecânica com o instrumento? Houve alguma ideia musical que foi difícil de concretizar devido às limitações das ferramentas de produção que utilizaste? Sentes que, de alguma forma, o teu modo de composição se alterou? 

À medida que ia fazendo as composições para este álbum estava constantemente a pensar “que mais elementos poderia adicionar?” ou “será que já tem os elementos musicais suficientes?”, apesar de querer sempre adicionar o saxofone nem sempre achei que iria beneficiar a música. 

Já há alguns anos que andava a explorar e a compor música dentro do computador numa DAW, ia fazendo pequenas composições, muitas delas meros exercícios, isto foi-me dando um leque de técnicas diferentes, esta fase mais experimental além de ter evoluído o meu domínio do software, ajudou-me a perceber as sonoridades que podia alcançar e os seus limites também, com isto quero dizer que não houve uma ideia musical difícil de concretizar, foi um processo em que ia tentando várias hipóteses até encontrar alguma que sentisse que era a perfeita para um determinado objetivo. 

Este é o meu primeiro trabalho em que me vejo como um compositor. 

As geografias sónicas exploradas em 2020 distanciam-se em larga medida do jazz, registo no qual frequentemente te encontramos com notável à-vontade. Foi esta uma divergência estilística que ocorreu naturalmente na busca pela tua identidade musical ou houve uma predeterminação intencional do caminho a ser explorado? 

Foi puramente uma divergência estilística que ocorreu naturalmente, apesar do meu caminho académico ser na área do jazz, este dá-me ferramentas para explorar com mais facilidade diversos estilos e a talvez a possibilidade de ter uma visão diferenciada que acrescente algo. 

Toda a atmosfera do trabalho é fresca, imprevisível e dinâmica, sempre a surpreender o ouvinte em várias frentes. Quais as referências que influíram no processo de criação deste álbum? Consegues nomear artistas ou trabalhos específicos que tiveram impacto nas tuas escolhas estéticas? 

Apesar de ter influências de vários artistas e de diversos estilos, Aphex Twin foi o artista que mais me aproximou do mundo eletrónico, especialmente o álbum Hangable Auto Bulb

Qual o equipamento e software de produção que usaste na feitura deste projecto 

Este álbum foi todo criado no Ableton Live. Usei diversos instrumentos acústicos e virtuais que depois modifiquei-os dentro do software, tendo uns mais processamentos que outros. 

Foi2020 pensado para poder vir a ser apresentado em live act? Se sim, tens planos para que isso aconteça? 

2020 não foi pensado para ser apresentado em live act, contudo tenho vindo a desenvolver um, em que tenciono incorporar músicas do álbum 2020

Apontando mira ao futuro, algum projecto no qual te encontres a trabalhar e sobre o qual gostarias de revelar alguns pormenores 

Continuo a trabalhar em músicas para ABS e tenho ideias para um novo álbum, gostava que tivesse um conceito mais concreto, e no qual planeio impor limites de instrumentação e seguir uma temática. 

João Morado