João Mortágua & Luís Figueiredo – Kintsugi

E ao quinto lançamento da Roda Music, deparamo-nos com mais um tiro certeiro da editora conimbricense que tem sido a casa para que músicxs como Rita Maria, Mário Franco, Lara Lima, Filipe Raposo, Luís Figueiredo e João Mortágua tragam a público as suas criações musicais, sempre interessantes – verdade seja dita! – e que adicionam um outro vértice expressivo e vincado à cena nacional de jazz e música improvisada. E é precisamente dos dois últimos músicos da anterior enumeração que vem Kintsugi, título que advém da arte japonesa de reparar as zonas partidas de cerâmica com laca polvilhada ou misturada com ouro, prata ou platina, e que como filosofia encara o processo de reparação de um objecto como constitutivo e indissociável da história deste, rejeitando assim a ideia de que uma reparação seja apenas uma modificação posterior sem ligação à sua natureza significante. Dito título remete-nos imediatamente para a linguagem jazzística e improvisada na perspectiva de que estas são formas de expressão que naturalmente incorporam erros (se é que assim lhes podemos chamar), desvios em relação ao plano inicial, acidentes de percurso, impulsos incontroláveis, variações imprevistas. Afinal o rigor subjacente a uma partitura, numa perspetiva formal e académica, é parente da dita música erudita, e mesmo nesse domínio há uma certa margem de liberdade para devaneios interpretativos, não fosse o caso de habitualmente termos mais apreço pelas Variações de Goldberg tocadas por Glenn Gould do que por qualquer outro pianista. Ainda não entrámos na era da interpretação mecânica, felizmente, hipotética época distópica em que intérpretes serão substituídos por máquinas – para ouvidos moucos também qualquer executante serve – e a música será desprovida de nuances e relevos. Não tenho como saber se foi exactamente esta perspectiva de aceitação do erro e do imprevisto que influenciou o modus operandi que a dupla Figueiredo & Mortágua assumiu na criação de Kintsugi, mas certeza tenho de que tudo neste álbum soa justamente como deveria soar. 

Quer Figueiredo quer Mortágua são músicos com créditos já firmados no panorama nacional e com vários destaques discográficos ao longo da sua carreira. A título de exemplo, de Luís Figueiredo ouvimos recentemente À Deriva, registo a solo, completamente improvisado, em que o pianista, com lirismo e sensibilidade, conduz os ouvintes por seis temas saídos directamente do seu imaginário pessoal que tanto remete os ouvintes para Keith Jarrett ou Mal Waldron como para Chopin ou Lizst. Por outro lado, de João Mortágua há pouco tempo escutámos Land, um dos pontos altos do jazz nacional de 2020, álbum da autoria dos MAZAM, quarteto liderado pelo saxofonista. Unindo esforços para uma obra de grande amplitude musical, com ideias refrescantes, ousadas e cativantes, Figueiredo & Mortágua lançaram-se na criação deste novo registo, merecedor de uma audição atenta até mesmo para ouvintes fora do espectro do jazz. Pois se Kintsugi contém temas de semblante sóbrio, académico e erudito, como “prémio” para o ouvinte possui igualmente a particularidade de que várias são as faixas em que duo se despe deste “peso” estilístico, desvelando uma faceta dançável e quase urbana que enfatiza zonas de sobreposição estética com sonoridades que se mesclam com a electrónica, o actualmente cunhado JazzNotJazz, a música experimental e outras vanguardas artísticas. 

Porventura os temas catalogados como “Stream” (I, II, IV) são os que mais se aproximam da tradição de improvisação livre europeia, com os músicos a guiarem-se mutuamente por entre sinuosas paisagens esculpidas a contrapontos livres, tensões irresolúveis, olhares de empatia, solilóquios paralelos que se entrelaçam em diálogos, harmonizações (in)fortuitas e melodias conducentes. Já outra série de fluxos – “Stream” (V e VIII) – recorre ao mesmo ímpeto espontâneo dos seus antecessores, mas por intermédio de um arsenal de fontes sonoras que se encontra nos antípodas da acústica do piano e saxofone utilizados naqueles. A história agora é feita de samples, field recordings, delays, reverberações e oscilações, elementos que formam um ambiente sinistro, quase fantasmagórico, de uma densidade narrativa que aguça a curiosidade de perceber quais os próximos desenvolvimentos da conspiração. Já “Bong Bang” tem por base um ostinato de sintetizador que fornece as primeiras pistas de outros caminhos que serão explorados neste álbum, com os delays iniciais a resvalarem para um concreto momento de improvisação acústica, numa contínua fusão de dois mundos putativamente distintos. Floor” inicia-se com a mão esquerda de Figueiredo a desenhar o motivo matricial do tema, inicialmente acompanhado pelo homófono sopro de Mortágua que rapidamente assume uma relação polifónica com o piano, interacção posteriormente complexificada pela entrada da mão direita de Figueiredo que controla um sintetizador de timbre lancinante. Com o chão já criado e a suster toda a construção, tempo para dar forma ao telhado com “Roof”, tema em que a percussão entra em cena, provendo um groove contagiante que faz pairar sobre a dupla uma ambiência cósmica e futurista. “Liquid Song” diverge de uma melodia “mainstream” para uma abstracção contemplativa onde se ouve a percussão em reverse, momento que propela o piano e a bateria a desafiarem-se mutuamente, concatenando ideias até regressarem ao motivo inicial para dar início à coda. “Journey” tem laivos de jazz espacial e psicadélico, que nos fazem lembrar os britânicos Comet is Coming, sustendo-se através de uma marcada e repetitiva batida electrónica. A sonoridade da drum machine (ou software) utilizada tornam este tema apto para qualquer pista de dança, ainda mais quando a base se encontra adornada pela diversificada panóplia de abordagens e efeitos de Figueiredo nas teclas e de Mortágua no saxofone. “Enlightment” não é uma provocação a Adorno e Horkheimer, mas sim um crescendo – também ele, tal como “Journey”, de génese mais dançável – com contornos de epifania que gradualmente regressa ao ponto de partida. Para terminar, uma despedida calorosa, capaz de derreter até os corações mais duros; “Home” não nos faz regressar a casa, mas conforta-nos como se nela estivéssemos. Uma belíssima escolha para terminar esta maravilha, também ela exemplar único de uma estética em que a dupla se mostra confortável e competente.  

Kintsugi é uma repreensão  à previsibilidade, tradição e conformismo. Com suavidade, visão holística e grande criatividade, Luís Figueiredo e João Mortágua deram corpo a um álbum de um ecletismo notável em que criam novas pontes, destroem outras já ultrapassadas, e, como resultado, dão forma a uma rede de ligações que, apesar de pouco aparente, sempre pareceu destinada a existir. Obra de quem ainda tem muita coisa para revelar. 

João Morado