Javier Subatin – TRANCE

Depois de autotelic (2018) e Variaciones (2020), eis que surge TRANCE, o mais recente trabalho do guitarrista argentino residente em Portugal Javier Subtain, lançado através da ears&eyes Records com apoio da Antena 2. E como em qualquer discografia que se começa a avolumar, despontam já certas características do corpo musical do guitarrista que parecem ser ubíquas. As influências das sonoridades que traz do seu continente natal são uma delas, atributo que confere um balanço e um cunho melódico muito próprio à sua música. Além disso, apesar de conceptualmente distinto dos seus predecessores, TRANCE revela também uma propriedade transversal que Subatin impõe nas suas composições, que veementemente rejeitam torná-lo num protagonista que se serve de uma banda de suporte para canalizar as suas ideias; pelo contrário, Subatin tem-se sempre mostrado como um músico bastante generoso, colocando em equivalente patamar de protagonismo os companheiros com os quais se reúne para gravar, permitindo, assim, que estes também transmitam a sua personalidade musical nas composições daquele. A propósito, este espírito colaborativo do guitarrista está firmemente patente no CI Community Project, iniciativa da qual Subatin é um dos cérebros e pilares fundamentais e que reúne uma eclética comunidade de músicos e improvisadores de várias nacionalidades. 

Para além de uma notória maturidade advinda da cristalização dos anteriormente referidos detalhes na música do argentino – factores que a tornam diferenciada, distinta e reconhecível -, o músico continua a manifestar-se inventivo e explorador, preterindo a consolidação de um método composicional com vista a uma formação específica para, antes, favorecer a escrita para formações com tipologia diferentes, tornando, deste modo, cada álbum num novo desafio que, aliás, tem superado com distinção. Apesar disso, a presença de Diogo Alexandre, de baquetas em punho e sempre preparado para gerar ritmos e texturas, tem sido uma constante ao longo do corpo musical de Subatin. Além disso, neste álbum, a juntar-se ao baterista e ao guitarrista, surge também Daniel Sousa, o soprador de serviço que se encontra ao comando do saxofone alto. 

As composições que servem de base a TRANCE são baseadas na estrutura-mãe do jazz de “exposição-improvisação-exposição”. Na verdade, as improvisações são predominantes, formando, por isso, o núcleo dos temas. E é, aliás, a gravitar em torno deste momento de expressiva liberdade criativa que as faixas se desenvolvem, evoluindo através da “repetição de pequenos motivos contrastantes em loop”, padrão circular que “leva os músicos a uma espécie de estado de transe” e que tem o seu ponto alto, claro está, no acto de improvisar. Desta feita, tocar de forma livre não emerge aqui como o destino final, mas sim como o estado catártico em que as verdades constitutivas de cada um dos músicos são expurgadas. 

“Trance#1” abre as portas do disco através de um ostinato do saxofone alto que sofre, progressivamente, ligeiras modificações da sua linha melódica, sendo acompanhado pela guitarra em contraponto de Subatin e pelos ritmos a preceito de Diogo Alexandre. O estado do trio nesta secção é elevado e animado, apenas com resvales breves para momentos mais acentuados de tensão que acabam por desvelar, a pouco e pouco, uma intenção do trio de dar início à improvisação. A esta matriz-base do tema seguem-se, então, as improvisações: primeiro, um amplo e dinâmico solo do guitarrista; depois, uma subtil mas intrigante intervenção do baterista, reveladora de uma profunda astúcia rítmica. A abrupta passagem para a improvisação do saxofone é um instante de grande inspiração: há claramente uma mudança de página, apesar de paulatinamente surgirem sinais de que continuamos na mesma narrativa. Por fim, antes de o trio passar ao próximo capítulo, há ainda tempo para voltar à ideia inicial, viragem consumada com um regresso à secção de exposição. Já “Trance#8” começa bem alto para rapidamente cair em cascata para águas de acalmia e contemplação. O que se segue é improvisação livre submergida numa aura de plenitude e primor: Subatin ora toca acordes abertos ora cria arranjos impregnadas de efeitos; Diogo Alexandre dá asas a uma abordagem textural, amplamente recorrendo aos aros do seu kit, ao cintilar dos pratos ou aos incandescentes timbalões para adensar o tema de mistério e enigma; Daniel Sousa sopra notas longas, quer suaves quer estridentes, verdadeiros cantares inebriantes que nos envolvem e hipnotizam. “Trance#2” é provavelmente o meu tema favorito. A fórmula é semelhante à de “Trance#1”: ostinato – desta feita iniciado por Subatin –, entrelaçamentos sucessivos entre sax e guitarra, e longos segmentos de improvisação e variação sobre o tema que, para terminar, são interrompidos pela conda, uma épica cavalgada – daquelas perfeitas acompanhar um crepúsculo matinal – na qual o ritmo melódico gradualmente acelera, trazendo vida e vitalidade. Em “Solo#2” escutamos Subatin a discorrer ideias ao som de uma bateria abafada e de um saxofone cheio de leveza, esculpindo formas com o seu instrumento de forma polida e elegante. O regresso à série trance dá-se em “Trance#5”, o tema mais curto do álbum que, partindo de um relutante segmento de abertura, desenvolve para interessantes contrapontos de semblante erudito entre o sax e a guitarra. “C Jam Blues” baseia-se na homónima composição de Duke Ellington, aqui revestida de uma contemporaneidade sublime que a reinventa com originalidade. Há espaços para vários solos, sendo que um dos momentos-chave é o solo de Javier, revelador do extensivo uso que este faz do seu instrumento ao longo de todo álbum, explorando exaustivamente toda a verticalidade e horizontalidade do braço da guitarra, qualidade que confere aos seus solos uma amplitude e dinâmica imensamente aprazível. Para rematar o álbum, outra composição da série trance, desta feira a número 4, que avança em tonalidade maior até que instabilidade harmónica é introduzida pelos acordes do guitarrista, gatilho que faz com que o trio decaia para uma tonalidade menor. Estas modulações tonais são propagadas até ao final do tema, numa constante e ágil oscilação entre escalas que permite a exposição de vários estados anímicos, porém com um subjacente balanço que nunca degenera. 

TRANCE é mais um trabalho sólido de Javier Subtain, no qual o guitarrista reitera a importância da sua linguagem musical e reafirma o seu espaço no panorama jazzístico português. É evidente que a música de Javier é singular, contemporânea e original – não lhe dar a devida atenção seria negar a rica musicalidade de que é detentor. 

João Morado