JazzHausMusik – Yaroslav Likhachev Quartet / Victor Gelling 4 / Rudi Neuwirth & Andreas Willers / Daniel Weber / Esche

Yaroslav Likhachev Quartet – Crambling

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Não obstante já existir desde 2016, o quarteto liderado pelo saxofonista tenor Yaroslav Likhachev – do qual fazem parte Yannis Anft (piano), Conrad Noll (contrabaixo) e Moritz Baranczyk (bateria) – não havia ainda editado o seu primeiro disco. 2020 foi o ano em que esse esperado primeiro lançamento finalmente aconteceu. E em boa hora, pois Likhachev é um promissor jovem saxofonista europeu, distinguindo-se quer pela sua vertente de compositor quer pela veia de intérprete. A música do russo, actualmente residente em Colónia, é tão vibrante e atraente como mordaz e provocadora. Ademais, apesar de profundamente imbuída na tradição jazzística americana – o que ouvimos inspira-se um pouco em todos os bops que por aí apareceram -, é igualmente sustentada numa robusta abordagem à composição, que, não sendo implacavelmente disruptiva, apresenta provas de que o sangue deste já ancião organismo que é o jazz continua a pulsar e a mover corpos, incitando-os a continuarem a criar e a aventurarem-se pelas ruelas do que ainda não foi feito. E, nesse sentido, Crumbling é uma das mais interessantes surpresas de 2020. Num ano em que tudo parece ter corrido mal, eis que surge alguém com a sapiência dos velhos e o espírito dos novos, pondo-nos de novo a vibrar com música que renova o vocabulário de uma tradição com o espírito e a ousadia de uma nova geração. Que mais seria possível pedir? 

Como explicado em notas de apresentação, o título Crumbling advém do processo criativo utilizado na realização deste disco, que não tem implícito a “decomposição de estruturas musicais”, mas sim a “descoberta de novos caminhos” numa jornada em que se trabalha com “fracções, fragmentos, às vezes quase partículas criativas nucleares dentro do cosmos da música improvisada”. Estes elementos, dispersos à partida, são então ligados num processo composicional com vista à sua agregação em faixas estruturadas. Mas se sentimos que existe uma ampla dinâmica presente no disco – onde vários estados de alma são visitados, muitas vezes no mesmo tema -, seria impreciso descrever os temas como uma mera colagem de diferentes fragmentos, isto porque é notável a suavidade e continuidade do fluxo musical mesmo nas partes inter-segmentais. Assim, estamos perante música que flui continuamente, avessa a destruições abruptas e sem sentido, e sustentada em lógicas alterações de tempo ou de melodia que a tornam viva e activa. 

Crumbling começa com “November Tune”, uma faixa que nos prepara para a dinâmica deste trabalho com longas intervenções de Likhachev, um delicioso criar e resolver de tensões vindo da parte de Anft, um versátil Noll que tanto toca o contrabaixo com os dedos como com o arco, e um perspicaz Baranczyk que nos encanta com a sua percussão macia mas brilhante. “The Fifth Mode” é curta e directa, atraiçoando as expectativas dos ouvintes com ritmos sincopados que são contrapostos a um groove transversal a todo o tema – somos incitados a dançar ao som do tema sem saber ao certo como o fazer. “Ballad for Eli” é uma dolente balada usada para quebrar o ímpeto que prevalece ao longo de todo o álbum, revelando a faceta mais emotiva do quarteto, igualmente ouvida em temas como “Sicilian Flower” ou “Traceless Waters”, este último de feição contemplativa. O tema homónimo, “Crumbling”, abre a partir de uma reflexão ao piano para um desconcertante djent jazzístico, progressivo e imprevisível – é um tema fantástico e profundamente dinâmico, onde vários elementos do quarteto têm espaço para demonstrar as suas capacidades criativas em solos. “He Must Go, And He Goes” e “U74” são mais dois exemplos da potência do grupo: épicos solos de saxofone, cascatas de colorações vindas do piano, subtis intervenções na percussão a alternar com tempestuosas acções sempre que necessário, e um contrabaixista discreto mas eloquente que funciona como peça agregadora dos restantes instrumentistas. 

Yaroslav Likhachev afirmou em Crumbling as suas excepcionais qualidade composicionais e interpretativas. Um álbum altamente recomendado e que nos faz ansiar por ouvir mais música vinda do saxofonista. Esperemos que tal esteja para breve. 

Victor Gelling 4 – Alpakafarm

Apesar de ainda jovem, o teutão Victor Gelling tem demonstrado provas de talento e criatividade que o tornam alguém merecedor de atenção e reconhecimento. Um notável exemplo deste potencial é Alpakfarm, álbum onde o contrabaixista nascido em Berlim, mas residente em Colónia, se junta a Victor Fox (saxofone e clarinete baixo), Gabriel Rosenbach (trompete e fliscorne), e Leif Berger (bateria) para formar os Victor Gelling 4, quarteto que surge com uma interessante proposta musical que estabelece pontes concretas entre o passado e o presente do jazz.  

Os Victor Gelling 4 tocam algo que apelidaria de post-bop contemporâneo, pois estamos perante uma mescla na qual este género do jazz é dominante na matriz gramatical das composições, apesar de se encontrar abundantemente fundido com abordagens livres, próximas do free jazz, onde são realçadas estéticas harmónicas e melódicas modernas. Alpakfarm é, assim, um trabalho composicional interessante e apelativo, ousado na incursão pelo desconhecido, mas sempre ancorado a bases que são relativamente familiares e que, dessa forma, facilitam a investigação dos novos mundos apresentados. 

“Hinterland” abre o disco num clima ébrio e titubeante, com notas arrastadas e ritmos desconexos, numa espécie de doom jazz que vai ganhando ímpeto e desvendando a sua forma através de intervenções com figuração individual que culminam num final em que, em conjunto, o quarteto se afirma colectivamente. “Nichts Von Nachtigallen” abre impressionista, cresce ao ritmo do walking bass, e desagua em roda livre em direcção a um final onde as tensões são resolvidas. Já em “Laternen I” assistimos a mútuas provocações entre Fox e Rosenbach, que passam a palavra um ao outro num constante diálogo em que ora discursam sozinhos ora simultaneamente, subindo e descendo escalas como quem freneticamente se move em círculos. “Der Sowjetrussische Dialektische Materialismus” – título que advém do livro homónimo de Buchénski – começa com laivos de marcha para se desintegrar em abstracção e experimentação, regressando, para terminar, aos ritmos marciais do início. “Do You Know What It Means To Miss New Orleans” refresca brilhantemente o hot jazz da cidade berço com rasgos de epifanias impulsivas. “Das Nächsten-Dienstag Problem” possui uma aura boémia, quase reconfortante, com o quarteto a caminhar a trote através de melodias que lhes saem do peito. “Laternen II” aproxima-se de “Laternen I”, sendo uma extensão em câmara lenta dos temas desenvolvidos neste. Por fim, “Come Sunday”, composição de Duke Ellington, é aqui reinterpretada com enorme sensibilidade, terminando o disco de forma sóbria e parcimoniosa. 

Alpakfarm consegue ser inovador sem nunca perder rasto ao que já foi feito no passado. É, por isso, um trabalho que não deve apenas ser ouvido, mas sim escutado de forma atenta e curiosa de modo a se perceber as tendências e caminhos que uma nova geração de músicos, altamente qualificados e inovadores, se encontra a trilhar. E não falamos de mesclas baratas como estão tão em voga nos últimos anos, mas da exímia incorporação na composição da tão importante dialética de reacção-progresso que obriga o jazz a adaptar-se a uma nova realidade. 

Rudi Neuwirth & Andreas Willers – Jazztage

Há que admitir que nem sempre é fácil encontrar jazz vocal que não resvale para as já cansadas abordagens dos crooners. Graças a este desencanto, é com autêntico interesse que se recebe tudo o que se afasta deste paradigma mainstream. E é neste campo criativo desprendido de banalidades e clichés que encontramos Jazztage, um trabalho da autoria do duo composto por Rudi Neuwirth (voz) e Andreas Willers (guitarra).

Reduzidos a uma formação minimalista, a dupla desmonta clássicos como “Nefertiti” de Wayne Shorter, “Giant Steps” de John Coltrane ou “Dolphin Dance” de Herbie Hancock, para além de apresentar duas composições integralmente originais. E este desmontar de temas icónicos do jazz é feito não só através da sua redução aos componentes fundamentais, mas também reinventando-os de tal forma que, em várias ocasiões, apenas leves sinais de contacto com o tema inicial são sentidos. A este propósito, uma pista para o afastamento sentido em relação ao original é-nos dado pelo próprio Willers, que afirma que “em temas mais complexos a nível harmónicos, [usou] uma espécie de escala diatónica invertida, organizando as relações entre as notas de forma a que o final [soasse] abstracto ou que a sua estrutura [harmónica] tivesse sido destruída”. E Willers, de facto, habilmente vira de tal modo as composições ao contrário que consegue criar música dentro da própria música, avançando com as suas propostas melódicas e harmónicas por entre o esqueleto sobre o qual os temas se sustentam. Tudo isto acontece, está claro, pois Willers é um guitarrista soberbo, altamente original e criativo, que consegue retirar da sua guitarra um espectro de sons que se estende desde os quentes e redondos, até aos ásperos e ruidosos. Além do mais, o músico recorre frequentemente a diversos efeitos que estendem ainda mais a sua palete tímbrica, fazendo com que o seu tocar nunca se estagne ou se torne repetitivo. E se Willers é um guitarrista que se apresenta em grande forma, não menos poderá ser dito da prestação de Neuwirth, que com a sua voz límpida e cristalina, aliada a uma grande sensibilidade no momento da improvisação, soa sempre fresco e estimulante, formando com Willers um organismo unificado e em perfeita simbiose. Jazztage é mais uma interessante proposta da JazzHausMusik, e um disco que interessará especialmente àqueles em busca de uma lufada de ar fresco.

Daniel Weber – Dramatis Personæ

Web

Baterista e artista de vídeo, Daniel Weber apresentou recentemente o seu último trabalho a solo intitulado Dramatis Personæ. Todas as faixas deste disco foram improvisadas pelo próprio ao longo de dois dias (5-6 de Junho de 2020) no Kwandt Audio Studio, em Saarbrücken, na Alemanha, usando apenas técnicas estereofónicas, não tendo havido a posteriori qualquer tipo de edição nem sobreposição de overdub . Estamos, portanto, perante um trabalho que reflecte uma versão do que de mais espontâneo o artista alemão tem para oferecer. E o seu interior musical é claramente rico e diverso, apresentando quer os mais convencionais solos de bateria – muito caracterizados por uma quase obsessiva repetição de certos padrões e ritmos -, como também detalhadas explorações das possibilidades latentes dos instrumentos que tem à sua disposição, levando-os ao limite através da produção de um abrangente leque de granularidades, rugosidades, texturas e gradações tímbricas e tonais que transcendem o âmbito das abordagens convencionais através do uso de técnicas extensivas. Mas engane-se quem pense que a música deste Dramatis Personæ se cinge meramente a uma dimensão técnica ou até mesmo a uma demonstração das capacidades mecânicas do músico. Apesar da aparente dificuldade em criar narrativas e melodias/harmonias com instrumentos percussivos, Daniel Weber consegue fazê-lo de forma surpreendente, aliando, assim, o seu reportório sintático a uma profunda intenção semântica que dá cor e movimento às improvisações. Deste modo, estamos perante sons que fluem tanto a nível temporal, como igualmente se sobrepõem em múltiplas camadas tímbricas que adensam e intensificam a riqueza vibracional deste trabalho. 

Dramatis Personæ é um estudo minucioso das potencialidades dos instrumentos que Weber tem a seu dispor, assim como dos limites técnicos e criativos do próprio músico, factos que tornam este álbum numa extensa e eclética investigação que bebe tanto da Neue Musik de Xenakis, Reich ou Bartok como do jazz de Elvin Jones ou Tony Oxley. 

Esche – Unter and uber Wasser

João Morado