Florian Arbenz & Greg Osby – Reflections of the Eternal Line

E eis que, mais uma vez, colaborações transatlânticas se revelam profícuas e interessantes. Falamos de Reflections of The Eternal Line, disco que consuma uma relação profissional com mais de 20 anos entre o músico suíço Florian Arbenz e o natural do Missouri, mas actualmente residente em Nova Iorque, Greg Osby, nome grande da Blue Note durante as décadas de 1990-2000, com uma discografia em nome próprio que ascende já a mais de 20 títulos. Apesar desta longa e antiga colaboração, Arbenz e Osby nunca haviam gravado um álbum juntos, feito que se viu logrado neste disco lançado sob a chancela da Inner Circle Music. 

Mas se foi a música que uniu e que serviu de ponto de comunhão aos dois músicos, seria incompleto abordar este trabalho sem referir que o seu espectro de criação artística também se estendeu ao campo das artes visuais, pois o pintor suíço Stephan Spicher surgiu como um terceiro elemento fundamental neste projecto, quer para o desenvolvimento do mesmo no que toca à esfera musical – os temas deste disco foram beber a uma série de pinturas deste -, quer para acolher o duo e o prover de um ambiente físico propício à gravação do álbum – o estúdio do pintor foi o local escolhido para a gravação das sessões que aqui ouvimos. Deste modo, estamos perante um disco que sinergicamente uniu a música à pintura, exponenciando e potenciando o campo e foco de acção de cada uma destas artes, e que teve como produtos finais não só um conjunto de composições, mas também uma nova série de pinturas desenvolvida a par com a música. Falamos, portanto, de interdisciplinaridade ao mais alto nível, que envolveu grandes artífices dos dois domínios num acto de pura criação artística. 

Uma das primeiras características que ressalta aquando da audição deste Reflections of The Eternal Line é que não sentimos que fica mais pobre por nele não encontrarmos instrumentos harmónicos ou fontes sonoras que preencham o espaço disponível de uma forma mais completa ou corpulenta. Apesar da linearidade do saxofone, Greg Osby é – como seria de esperar, aliás – alguém que nos encanta com as suas melodias e improvisações, um mestre que domina os seus instrumentos (aqui os saxofone alto e soprano) e o material tonal com que trabalha, um manancial de verdades musicais – que não são truísmos, note-se – em relação às quais é impossível ficar indiferente e que trespassam o nosso espírito com mácula, aprazendo os nossos sensores de beleza musical – se é que eles existem –, deixando-os a fervilhar, sequiosos de mais estímulos. Além disso, a acompanhar esta máquina encontra-se, então, Florian Arbenz, aqui ao comando de um kit de bateria de jazz clássico expandido com um enorme gongo balinês, algumas kalimbas e outros instrumentos de percussão personalizados que permitem produzir algo semelhante a linhas de baixo e, até certo ponto, alguma harmonia. Arbenz é um baterista completo e versátil: tanto se aventura por geografias mais rockeiras, como facilmente abordas modos claramente jazzísticos, apresentando óbvia facilidade no congeminar de cativantes improvisações e compings que adornam sucedidamente as intervenções de Osby. 

O álbum abre com “Wooden Lines”, tema iniciado a solo por Arbenz, ao qual Osby acaba por se juntar, introduzindo-lhe a efervescência necessária para agitar as águas e deslocar o duo em direcção a territórios de alta energia e vigor. A este statement de potência segue-se “Chant”, faixa cautelosa na qual a um baixo drone se juntam as misteriosas linhas melódicas de Osby a adensar e intensificar a atmosfera. Passada a bruma e o enigma, surge, então, a clarividência de “Truth”, tema que sincroniza o duo nos pólos melodia-ritmo, permitindo que Osby explore vários registos: de um evidente bebop Parkiano até ao resvalar para frases mais compadecentes com a liberdade de um post-bop à lá Wayne Shorter, o tocar do saxofonista é diverso e sempre assertivamente acompanhado por Arbenz. “Homenage” hipnotiza-nos com incensos de aromas orientais, qual homenagem a um deus aqui invocado de forma cerimonial. “Groove Conductor”, tal como “Wooden Lines”, parte de um solo de Arbenz – cadenciado com um monótono e monotonal baixo que acompanha toda a composição – que serve de ignição para que a dupla entre em combustão, disparando a todo o groove em direcção a um espaço de improvisação e exploração de limites mútuos. “The Passage of Light” é um dos temas mais bonito do disco, dolente e choroso – uma autêntica delícia! Por fim, o disco finaliza com “Please Stand By”, um pedido ao qual facilmente acedemos para, por mais uma (última) vez, escutar a maravilha que é esta colaboração. 

Reflections of The Eternal Line é um bom disco que, apesar de ter por base um duo de saxofone e bateria, é da autoria de músicos altamente talentosos que facilmente contornaram as presumíveis limitações desta configuração de banda, elevando-a, aliás, a patamares realmente interessantes e alcançáveis por muito poucos. A interacção de ambos não poderia ser descrita por uma melhor analogia do que a observável harmonização e união das contínuas e (aparentemente) eternas linhas pretas e vermelhos presentes nas pinturas de Stephan Spicher. Devido a isto, a audição deste disco é, logicamente, recomendada.