Bernardo Devlin apresenta Proxima b: “Quis que fosse um álbum acústico mas urbano e contemporâneo. Talvez lisboeta.”

Fotografias: Raúl Cruz

Bernardo Devlin é autor de uma profícua carreira que, apesar de já se estender ao longo de quatro décadas, é ainda para muitos desconhecida. Afirmou-se com o colectivo lisboeta Osso Exótico no final dos anos 80 e, pelo caminho, cruzou-se com figuras proeminentes do panorama musical português, tais como Sei Miguel, Vítor Rua e DWART. Na década de 90, iniciou o seu percurso a solo através do selo AnAnAnA, editora pela qual lançou World, Freehold (1994) e Albedo (1997). Além disso, o novo milénio trouxe consigo mais três trabalhos do cantautor lisboeta: Circa 1999 (9 Implosões) (2003), Ágio (2008) e Sic Transit (2012).

Ao sexto álbum, lançado no final de 2020, é através de uma referência a Proxima b – exoplaneta que orbita na zona habitável da estrela Proxima Centauri – que Bernardo Devlin nos leva a reflectir de forma poética sobre as desigualdades vigentes na nossa Terra. “Não é ficção-científica. Não é um tema fácil. Não é um mundo fácil.”, avisa-nos perentoriamente o cantautor. E, de facto, não o é. Apesar disso, a premência e realismo destas questões não impedem que Bernardo cubra a sua música de um véu misterioso, mítico-poético, quase surreal e mitológico, que se a algo obriga é a uma perspectivação diferenciada de um problema comum. Numa pequena entrevista, ficamos a conhecer um pouco mais do novo trabalho de Bernardo Devlin, Proxima b.


Proxima b é o teu sexto álbum, lançado 8 anos após o seu antecessor, Sic Transit. Qual a história por detrás deste disco e quais as temáticas abordadas?

Não há história, há um processo. E esse processo passa pela transformação de energias, de acontecimentos, de estados de espírito que por vezes podem ser nocivos mas que podem ser matéria válida numa perspectiva artística, e isso não me parece que possa ser descrito em vans palavras. Também é uma questão de se reunirem condições para que as coisas possam avançar, o que neste caso veio a acontecer com o apoio da GDA.

Quanto às temáticas, as palavras não são planeadas de acordo com um programa pré-estabelecido. E também não se trata de um exercício de estilo apesar dos temas poderem aparecer de forma mais ou menos velada. Mas opto por deixar isso ao critério de quem ouvir, doutra forma para quê dar-me ao trabalho? Não sei se o Bob Dylan sabe dizer qual a temática por detrás do “Blonde On Blonde”…

Em notas de apresentação, afirmas que Proxima b reflecte “o tópico da consciência duma dimensão cósmica e da sua infinita (no que isso possa querer significar) proporção perante a realidade terrestre e humana, confinada a um minúsculo e muito singular ponto no espaço (o nosso planeta).” Como ficar inspirado por esta diferença de escala e não sucumbir perante a realização da nossa pequenez antrópica?

Essa noção de pequenez antrópica em nada nos diminui. Antes pelo contrário, a falta dessa consciência pode tornar-nos criaturas limitadas por padrões circunstanciais que se podem transformar em paradigmas e, pegando nisso, as circunstâncias atuais são um excelente documento acerca de como tudo pode dar para o torto.

Vivemos num mundo e num universo em permanente transformação e, inevitavelmente, todos fazemos parte dela. O status quo que parece escrito em pedra em determinado período não é senão mais um capítulo no grande esquema das coisas, seja ele qual for.

São vários os músicos deste disco que têm ligação à esfera da improvisação livre e que, inclusive, já participaram noutros trabalhos da tua autoria. Para aqueles que possam não conhecer o teu percurso, como se deram estes cruzamentos? Foram os Osso Exótico importantes neste processo?

Sim. Alguns dos músicos que participaram estão ligados à improvisação livre mas, para o caso, também são capazes de reagir melodicamente se as circunstâncias assim o pedirem. A grande vantagem é que trazem uma riqueza textural muito específica, uma vez que as personalidades são tomadas em consideração. E isso realmente aplica-se a todos os que participaram, independentemente do estilo que praticam nos seus projetos pessoais.

O Osso Exótico foi parte importante do percurso mas, pelo menos no período inicial do qual fiz parte, a abordagem não era uma de improvisação, muito antes pelo contrário. E eu próprio não sou um improvisador por natureza.

Referiste numa entrevista anterior que sentes afinidade pela estética surrealista. Em jeito de provocação, qual a expressão presente deste movimento em Portugal? Não foi Cruzeiro Seixas o “último dos surrealistas portugueses”?

Não é uma questão de “estética surrealista” e muito menos de uma visão rígida ou escolástica. Encontro surrealismo no César Monteiro ou nos !Von Calhau! para citar dois exemplos imediatos, o que não quer dizer que eles sejam “surrealistas”.

Ainda sobre o surrealismo, de facto a poética das tuas letras remete-nos sobejamente para esta corrente artística, na qual, entre outros, em Portugal,para além do já referido Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny e António Maria Lisboa foram referências inquestionáveis. Identificas-te com a escritas destes autores? Que outras referências influenciam a tua poesia?

Tirando o facto de o nome “Osso Exótico” ter sido retirado do António Maria Lisboa não consigo assinalar uma referência directa, e isso já foi há muito tempo. Posso dizer que recorro à escrita automática, ou “stream of consciousness” se assim quiseres, como ponto de arranque, mas depois disso o mais comum é haver um longo período de edição. Não me parece que a poesia se compadeça com a ideia de “referências” apesar de elas poderem ocorrer. Mas aí falo só por mim.

Por outro lado, a nível de estética sonora sentem-se influências que nos remetem tanto para o pós-punk britânico (ouça-se, e.g., “Macula Lutea”), como para a música de cantautores como Nick Cave, Mark Lanegan, Leonard Cohen ou, até mesmo, Lou Reed. Como descreverias e classificarias a música de Proxima b se o tivesses de fazer a alguém que não pudesse escutar o álbum?

Não sei se esse papel me compete. E tendo acabado de sair do que foi um longo processo talvez nem sequer tenha o distanciamento necessário para o fazer. No caso deste álbum, que é basicamente acústico, há a tentativa de evitar cair num propósito tradicionalista. Quis que fosse um álbum acústico mas urbano e contemporâneo. Talvez lisboeta. 

Numa música como a “Mácula Lútea” eu diria que há um elemento de flamenco que assenta numa cadência rítmica que eu associo mais à indução de transe seguido por momentos de introspecção. É uma espécie de dinâmica entre luz e sombra, exterior e interior.

Para terminar, estás a preparar ou a participar nalgum trabalho sobre o qual gostasses de revelar alguns detalhes?

Ainda não sei ao certo qual será a próxima etapa. Até agora tenho avançado por projectos acerca dos quais pensei durante longos períodos de tempo. E eu digo muito longos mesmo. E, tirando um só caso, essas ideias que tiveram um expandido tempo até à sua concretização chegaram ao fim. Portanto, a incógnita é real.

João Morado