No Nation Trio – Habitation

2020 não terminou sem que a Phonogram Unit, promissora editora nacional associada ao panorama de música livre e criativa, desse mais alguns passos em direcção a um lugar que talvez seja desconhecido pelos próprios membros da chancela, mas que se vai delineando de forma congruente e com lançamentos de qualidade. As melhores jornadas são assim, aliás, flexíveis e sem destino, porém com decisões tomadas com lógica e intencionalidade. E estes mais recentes passos dados pela editora consumaram-se através do lançamento de Habitation, um registo da autoria dos No Nation Trio, grupo que junta Jorge Nuno (guitarra acústica), Hernâni Faustino (contrabaixo) e João Valinho (bateria e percussão), músicos de quem ouvimos falar recentemente em diferentes ocasiões. E como nos encontramos a deambular pelo território da Phonogram Unit, de referir que Hernâni Faustino participou no primeiro lançamento da editora, Vento, enquanto que ouvimos Jorge Nuno e João Valinho no recente Anthropic Neglect, uma edição da Clean Feed Records. 

Habitation é um álbum de música acústica totalmente improvisada, com um bonito e apelativo art work, que nos remete para a organicidade da natureza. A definição dos temas é inconclusiva, facto imediatamente revelado pelos títulos dos mesmos (untitled I-IV). Estamos perante músicas sem título, algo deveras esclarecedor da recusa de imposição a priori de uma subjectividade aos mesmos por parte dos seus autores. Desta forma, os No Nation Trio não se comprometem a indicar-nos uma meta, unicamente indiciando-nos com subtiliza os trilhos que a cada faixa vão explorando, impossibilitando, assim, uma única e definitiva interpretação do álbum: cada audição é única, cada navegação uma experiência singular. Este dinamismo é, aliás, tal como a própria natureza, característico do que é aberto, orgânico, vivo, adaptável e metamórfico.  

É difícil não sentir, porém, que estamos perante música que expõe uma certa alienação que nós, como humanos, estabelecemos com os ecossistemas do nosso mundo, da nossa habitação. Há por isso uma certa atmosfera inquietante que desponta deste Habitation, que não se deve propriamente à sinistralidade dos sons, mas sim à estranheza de escutarmos algo que, apesar de nos ser familiar, é experienciado num ambiente deslocado. É como se, ao transportar os sons da Terra para as nossas colunas, sentíssemos uma certa distância em relação a esta paisagem sonora, como se fossemos invadidos por algo que nos é exterior, impessoal.  

“untitled I” demonstra logo algumas das características que são longitudinais a este trabalho, tais como, por exemplo, o uso de técnicas extensivas (a fricção e rilhar de cordas, percussão e “ritmos” não convencionais, entre outras) e a ausência de uma prevalente estrutura harmónica, rítmica e melódica que sirva de ponto de ancoragem a uma qualquer reminiscência passada. Sons são produzidos com um intuito funcional, com base num impressionismo usado na criação de ambiências das quais imagens gradualmente emergem, como se o trio em uno progressivamente levantasse o véu translúcido que a princípio cobre os temas. Esta primeira faixa é, portanto, curta mas reveladora: Faustino aborda o contrabaixo circularmente com sucessivos ostinatos; Jorge Nuno produz uma miríade de sons que parecem provir de perto de uma das extremidades da sua guitarra – ou do cavalete ou da pestana; Valinho colore o tema com a sua percussão. Em “untitled II” ouve-se Valinho a criar a matriz textural que serve de sustento à faixa. Faustino, a trote, toca notas que ecoam languidamente, para, no final, trocar os dedos pelo arco, produzindo um ambiente drone que convida à imersão. Já Jorge Nuno é o elemento mais livre do trio, quase auto-consciente da abstracção que é imposta, pois sempre que sucumbe a uma ordenação maior, sempre que se sente o iniciar de uma putativa linha melódica, rapidamente degenera novamente para a atonalidade e experimentação. “untitled III” é uma longa meditação em que o trio, ao longo de doze minutos e meio, sem pressa nem celeridade, desenha uma lenta ascensão a um plano superior. Uma faixa perfeita para se fechar os olhos e se ser conduzido através de longas e ecoantes vibrações que ressoam facilmente com o nosso lado mais espiritual – é um tema linear no eixo do tempo, pois adquire força anímica à medida que nele avançamos, mas complexo em todas as outras dimensões, que lhe adicionam elementos de imprevisibilidade e interesse. Por fim, o trio termina esta viagem com “untitled IV”, uma conversa contemplativa com o silêncio, na qual o trio actua como disruptor da ordem que a este está intrínseca, sobrepondo-lhe a sua, que, paradoxalmente, ganha entropia em direcção ao catártico final.  

Escalpelizar em demasia Habitation não é senão ir contra a própria génese deste trabalho, visto estarmos perante música que flui livre e espontaneamente em direcção a todo e nenhum lugar. É música para a alma, não para o corpo; é música abstracta e experimental, não formatada e não contida; é música que actua como catalisador para uma viagem interior, essa sim, de ordenação e significação pessoal; música para quem ousa aventurar-se pelo melhor que a música criativa portuguesa tem para oferecer. 

João Morado