Daniel Bernardes apresenta Crossfade Ensemble: “eventuais fronteiras entre o Jazz e a música erudita não são mais do que convenções”

Depois de um aclamado Liturgy of The Birds, que firmou Daniel Bernardes como um dos proeminentes artistas portugueses da nova geração, eis que o músico e compositor se prepara para apresentar o seu novo trabalho de estúdio, Crossfade Ensemble. Para este álbum de grande sensibilidade estética e melódica, o alcobacense reuniu um verdadeiro conjunto de craques das áreas do Jazz e do Clássico com o objectivo de interpretar música “que pretende misturar estas linguagens e formas de estar”. Se as composições são matéria de alguém inspirado, as execuções são igualmente iluminadas, resultando num belíssimo disco de audição obrigatória.

Para sabermos um pouco mais sobre este projecto, conversámos com Daniel Bernardes por e-mail. A apresentação de Crossfade Ensemble acontecerá a 11 de Dezembro, às 19h, no Cine-Teatro de Alcobaça. Um concerto a não perder.


“Crossfade Ensemble” é um álbum que, no que respeita à estética sonora, estabelece pontes constantes entre as linguagens da dita música erudita e do jazz. Com efeito, quer o teu historial académico quer o teu percurso profissional têm visitado com frequência ambos os domínios. Deste modo, há alguma destas esferas sónicas em que te sintas mais confortável ou é precisamente na sobreposição de ambas que encontras a tua verdadeira expressão?  

Deixa-me começar por dizer que as eventuais fronteiras entre o Jazz e a música erudita não são mais do que convenções, ou observações de tendências, e como tudo na música e na arte em geral, estas – com um pouco de argumentação – podem ser desmanteladas e chegamos à conclusão que é tudo música. Dito isto, creio que tenho uma preferência, mas esta prende-se mais com o processo do que propriamente com o universo sonoro. No universo da música erudita – embora existam casos em que a improvisação é solicitada ao intérprete – esta não é a norma, e por essa razão sinto-me mais em casa com a possibilidade de improvisação inerente ao Jazz. Mas claro, há algumas tendências na forma de fazer música erudita que me são muito caras, o trabalho meticuloso do timbre e do som de grupo, e claro – enquanto compositor – poder controlar todos os parâmetros musicais pode ser um desafio estimulante. No Jazz procuro deixar a liberdade aos músicos para incutirem a sua personalidade no que está a ser tocado. Enfim, gosto de explorar as várias possibilidades e, em suma, o que prefiro é mesmo navegar entre os dois universos e formas de fazer música.  

O álbum será editado em vinil através da plataforma Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa (MPMP). Como se deu esta ligação ao MPMP? 

Penso que um disco deve estar inserido num catálogo de uma editora com uma identidade formada, isso leva a que as pessoas confiem naquele selo para lhes trazer discos de músicos que não conheçam, mas que se inserem na linha estética da editora, daí que tenha escolhido a Clean Feed para o meu disco anterior “Liturgy of the Birds” que me parece integrar-se muito bem naquele catálogo. Quis dar a este disco uma natureza mais perto da música de câmara e desde cedo me pareceu um disco para uma editora de música erudita. O MPMP tem desenvolvido um corpo de trabalho muito abrangente, tocando em compositores de música antiga até aos compositores dos nossos dias e – sendo admirador do trabalho deles – quando surgiu a oportunidade de editarem este disco não pensei duas vezes.  

Fotografia de Nanã Sousa Dias

Reuniste um verdadeiro elenco de luxo para a realização deste álbum, contando com a participação de Hugo Assunção (trombone), João Barradas (acordeão), Sérgio Carolino (tuba), Jeffery Davis (vibrafone), Mário Dinis Marques (saxofone soprano) e Ricardo Toscano (saxofone alto e clarinete). Como foi trabalhar com este grupo de músicos e quais os desafios que esta escolha teve no teu processo de composição?  

Este acabou por ser um ensemble de escolhas incontornáveis. Gosto muito de gravar os projectos quando os músicos ainda estão a descobrir a música, é um risco pois a música não é fácil e tenho de confiar que os músicos percebem e asseguram a sua parte, assumo este risco pois para mim é nos primeiros contactos com a música que ela soa mais fresca e mais inspirada. Pode até não soar tão perfeita como ao fim de vários concertos, mas para mim, pessoalmente, não há entusiasmos como o do primeiro ensaio! Para este disco trabalhei dessa forma, enviei a música a toda a gente e juntamo-nos a primeira vez para gravar! Estes são músicos com créditos firmados e com quem eu já tinha contactado noutros projectos por isso estava relativamente tranquilo quando assumi esse risco de não ensaiarmos, estivemos um fim de semana a gravar e na semana seguinte fizemos o nosso concerto de estreia.  

Abres o disco com um tema dedicado à memória de Bernardo Sassetti, um dos grandes pianistas portugueses a quem prestas a tua homenagem. Que outras influências estão presentes nas composições deste disco, e qual a linha cronológica de escrita das mesmas?  

Este disco reúne uma série de composições que eu escrevi entre 2011 e 2016, altura em que gravámos, composições estas fruto de várias encomendas para diferentes solistas e ocasiões. Todos os compositores contemporâneos sofrem deste mal: o seu corpo de trabalho vai ficando espalhado por aqui e ali e sentimos falta de um disco que reúna aquelas obras, um pouco como um poeta que vai escrevendo poemas e a páginas tantas sente necessidade de os reunir num volume. Há discos que criamos de raiz em poucos meses – como aconteceu com “Liturgy of the Birds – outros acontecem porque olhamos para trás e reparamos que temos composições soltas que podem dar origem a um disco. Quando o corpo de trabalho se expande por cinco ou seis anos, as influências são inúmeras, as musicais e as extra-musicais. Da mesma maneira que não há pianista Jazz que não tenha sido influenciado pelo Bill Evans, não há pianista português que não tenha sido influenciado pelo Bernardo, mas também pelo Mário Laginha e o João Paulo Esteves da Silva. Depois claro, há compositores que ouço e estudo recorrentemente: Prokofiev, Messiaen, Ravel, Debussy e tantos outros… acho que felizmente não há nenhuma influência que salte à vista, de há uns tempos para cá sinto um idioma próprio mais firmado, o que me deixa muito feliz e aliviado!  

Uma das interessantes peculiaridades deste disco é a completa ausência de instrumentos puramente percussivos. No entanto, e em detrimento de uma bateria ou semelhantes, compete-te a ti, no piano, ou ao Jeffery Davis, no vibrafone – este último o instrumento que, na sua génese, porventura se encontra mais próximo da percussão –, estabelecer a métrica e o ritmo dos temas. Foi esta uma escolha puramente estética ou houve outros factores que influíram nesta opção? Keith Jarrett, por exemplo, diria que o piano é um instrumento intrinsecamente percussivo… Qual é a tua visão sobre este assunto?  

Abdicar da secção rítmica tradicional foi uma das primeiras decisões, o meu ímpeto foi ter improvisação no meio de peças escritas e fugir a uma sonoridade Jazz “pura e dura”, não teria conseguido essa natureza dúbia se tivesse um contrabaixo e uma bateria no disco. A relação com o Tempo também tende a ser diferente no Jazz e na música erudita: no Jazz o Tempo tende a ser fixo enquanto na música erudita o tempo tende a ser mais flutuante. Eu quis ter momentos em que me aproximava mais de uma e de outra posição, por exemplo no solo de piano do “Quatro” permito-me frasear um pouco e acrescentar e tirar valor aqui e ali, quando temos um groove a acontecer como no final do “Ostinato, Interlúdio e Canção” temos de segurar o tempo. É um aspecto fascinante da música, para mim… O João Botelho disse-me uma vez que ” no Cinema o tempo é tudo!” Acho que na música é exactamente o mesmo, e quis precisamente explorar esta dicotomia de tendências.  

Contas, no teu currículo, com várias incursões por trabalhos ligados ao cinema nos quais te dedicaste a musicar filmes. Nesta linha, incluis neste álbum uma suite intitulada “Imagens da Minha Terra”, divida em três andamentos – “Noite”, “Escola” e “Mosteiro” -, que evoca uma forte construção imagética. Foram memórias que inspiraram estas composições?   

Sim, essa obra foi encomendada pelo Festival Cistermúsica com o propósito de reunirmos um ensemble de músicos alcobacences com provas dadas nacional e internacionalmente. Tendo esse ímpeto em mente, pareceu-me adequado aludir à minha vivência nesta cidade. “Noite” alude à noite alcobacense que frequentei desde adolescente, os convívios com amigos, os concertos que toquei e assisti no Café Parlatório, onde conheci também muitos do músicos com quem estreei a obra. “Escola” alude à nostalgia pela infância, a um passado longínquo a que não podemos voltar e que recordamos com saudade. “Mosteiro” alude ao elemento central à volta do qual se estruturou a cidade, a sua imponência ao passar dos séculos e à volta do qual se desenrolam dezenas de histórias.  

Fotografia de Nanã Sousa Dias

Ainda em relação a esta associação entre música e imagem… Quais os paralelos que, na tua opinião, se podem estabelecer entre a música e o cinema em relação ao recurso ao espaço, tempo, movimento e sequência (ou outras características que acredites serem relevantes)? Pensas, de algum modo, a música em termos de imagens?  

Depende, normalmente o embrião de uma composição é uma ideia musical pura – algo que não tenta ser uma metáfora. Utilizo por vezes as imagens, ou narrativas como forma de estruturar as minhas composições, mas depende sempre do contexto para o qual estou a escrever. Na relação música e imagem, pode haver contraponto – é algo que o S. Kubrick utilizava muito, salta-me à mente a imagem do Malcom McDowell a cantar o “Singin’ in the rain” enquanto toma um banho na casa do escritor cuja mulher violou, e no quarto ao lado o escritor espuma de desespero! É um momento brilhante! Há relações misteriosas entre a música e a imagem em movimento, novamente: o tempo é tudo! Lembro-me na série “A Espia” de ter escrito uma passagem para uma cena em que o actor subia as escadas do hotel, era uma cena tensa com uma data de implicações e o produtor da série sugeriu atrasar um pouco o tempo, e aquela pequena alteração teve um impacto enorme de repente há ali um alinhamento dos astros e sabes que a cena está fechada, tudo encaixa. 

Crossfade Ensemble” tem lançamento previsto para 11 de Dezembro, em Alcobaça. Como se procederá a apresentação do álbum e como poderão as pessoas interessadas assistir à mesma?  

O concerto é no dia 11 às 19h, os bilhetes estão à venda na bilheteira online. O Cine-Teatro de Alcobaça garantiu as condições de segurança de acordo com as normas da DGS por isso é aparecer! 

Para terminar, estás a preparar algum trabalho futuro sobre o qual já possas revelar alguns detalhes?  

Neste momento estamos a ultimar o meu próximo disco “Beethoven… Reminiscências” que resultou de uma encomenda do Centro Cultural de Belém a propósito dos 250 anos de Ludwing van Beethoven. Existe uma canção tradicional portuguesa “Seus Lindos Olhos” arranjada pelo mestre alemão e este foi o mote para a encomenda do CCB: pegar no opus de canções de vários países e criar um espectáculo de Jazz contemporâneo. Tinha lido sobre uma tribo da América do Norte – os Índios Flathead – para quem era mais importante a recordação da música que tinham ouvido, do que o acto de a escutar a ser tocada. Achei esta ideia muito bonita: dar vida à memória daquelas canções de Beethoven e por isso ao longo de um ano, aprendi aquelas canções, esqueci-me delas e deixei que a minha memória operasse as suas transformações. Depois adaptei tudo para piano Jazz e coro, dirigindo o convite ao Coro Ricercare para se juntar a mim e ao Maestro Pedro Moreira – compositor e saxofonista Jazz  e que faz a ponte entre o meu universo mais Jazzístico e o da música Coral mais familiar ao Coro Ricercare. É um dos projectos mais incríveis que já fiz pela dimensão e pela profundidade musical que a música coral tem! Tenho actualmente duas encomendas substanciais e estou a perceber que tenho muita música para piano solo na gaveta e pondero avançar para um disco a solo a gravar no próximo ano, veremos… 

João Morado