Guillaume Gargaud – Strange Memories

Directamente do seu estúdio caseiro em La Havre, França, eis um disco no qual o guitarrista e compositor francês Guillaume Gargaud nos apresenta algumas das suas “estranhas memórias”. E se assim o são para o músico, justos não seríamos se o único adjectivo que usássemos para as descrever fosse esse mesmo, o qual lhes confere uma certa aura de anormalidade ou excentricidade. Quiçá exista aqui alguma estranheza, de facto, mas o alcance deste Strange Memories – uma edição conjunta Setola di Maiale e Chant Records – ultrapassa o de uma simples recordação de momentos singulares ou incomuns, tal é a diversidade de abordagens com as quais Gargaud interage com o seu instrumento. Em contrapartida, chamar ao conjunto de temas aqui apresentados de memórias não é de todo descabido, pois, tal como confessado pelo músico através de alguns e-mails trocados, este é um disco que reúne um conjunto de curtas improvisações que contrastam ao tradicional modus operandi do guitarrista, por norma habituado a longas sessões de improvisação. Enfim, as memórias humanas assim o são: curtas, mas impactantes; mais ou menos opacas, mas acopladas a carga emocional. 

Ritmicamente, em Strange Memories não existem tempos aos quais o guitarrista se cinge; existem apenas frases que têm de ser tocadas. As peças desenvolvem-se num permanente rubato modulado ad hoc, onde os motivos de guitarra aceleram e desaceleram, adaptando-se a gosto à vibração do momento. Esta flexibilidade estrutural não se restringe unicamente à dimensão rítmica, mas também à parte harmónica, melódica e técnica. Aliás, a harmonia é totalmente livre, com modulações a serem feitas consoante (ou não) as regras da composição musical. Por outro lado, linhas melódicas emergem e submergem, como um corpo que flutua e se sujeita às ondulações da corrente. Já a técnica, essa, é extensa e variada, com o guitarrista a fazer uso do glissando, pizzicato, tremolo e dedilhado entre tantos outros modos de tocar para os quais não existem propriamente definições formais. Por fim, o ambiente é intimista: ouvimos a respiração de Gargaud como se com ele estivéssemos a gravar este registo. Além disso, a gravação é de tal forma orgânica que são retidos todos os detalhes acústicos da configuração do estúdio, tais como subtis rangeres das cordas e toques na madeira da guitarra – pormenores que oferecem ao ouvinte colorações naturais e possibilitam uma experiência íntima da música do compositor francês. 

O álbum começa com “Mistery Travel”, tema no qual o guitarrista começa por vaguear por tranquilas paisagens que degeneram num dedilhado que se torna, a certo ponto, de tal forma agressivo, que soa praticamente a pizzicato Bartók. Gargaud resolve esta profunda tensão com um abafamento das cordas seguido de ataques rítmicos que, por fim, descarrilam num segmento progressivamente mais melódico e apaziguador. “Free Spirit” é a improvisação mais longo deste trabalho – cerca de 8 minutos -, na qual somos transportados para as caleidoscópicas e livres dinâmicas do músico. Em “Stay Away” é usado um efeito de reverse que nos propulsiona a flutuar ao som do legato produzido pela mão esquerda de Gargaud. A faixa homónima, “Strange Memories”, é um jogo pela busca de harmónicos, complementado com ocasionais acordes que assinalam momentos de consonância e ordem. A agressividade e velocidade com que Gargaud faz vibrar as cordas aumenta com a passagem do tema, terminando num sossegado e delicado quasi-ostinato. Já “Glissando” inicia-se com o guitarrista a fazer uso extenso da técnica com o mesmo nome, deslizando sobre as cordas em vibrato. Escutam-se também pequenas texturas que são criadas através de toques na caixa de ressonância ou de intencional fricção com as cordas. A dinâmica e complexidade é gradualmente incrementada: escutam-se laivos de um blues que se desintegra, surgem riffs e abordagens rítmicas atonais. “No Closing” é uma composição abrasiva, abstracta e totalmente textural. A técnica que o guitarrista demonstra neste tema – no qual, em determinado momento, consegue retirar inusitados sons que nos fazem lembrar sopros de trompete – é de uma proeza assinalável, sendo, por isso, um dos meus favoritos. “Curious Things”, contrastando ao experimentalismo da faixa precedente, faz-nos regressar a geografias mais térreas através de harmoniosos dedilhados. “Leave Open” é, indubitavelmente, a faixa de beleza mais óbvia deste disco. Isto deve-se, porventura, à evidente melodia que lhe serve de base e à qual Gargaud não resiste a adicionar pontuais cromatismos, de tal forma que a coerência melódica inicial é mesmo dissolvida, aventurando-se o músico, então, por paisagens mais apreensivas e agitadas. “Old Melodies” remata o disco com uma improvisação que é uma síntese do que até aqui foi ouvido. De assinalar os frenéticos momentos de tremolo ouvidos a meio do tema e que se opõem ao longo e reverberante trítono debitado para o terminar. 

Com destreza e criatividade, Guillaume Gargaud presenteia-nos com um interessante trabalho que reafirma a importância de estarmos atentos ao seu nome. São já oito os álbuns do improvisador francês, que tem vindo a realizar, ano após ano, colaborações e registos de nível elevado.