Luísa Gonçalves – UNNO

Após Paganini ter introduzido o conceito de recital e Liszt o ter adaptado ao seu instrumento – o piano -, vários foram os músicos e compositores que se aventuraram por esta exigente e ambiciosa demanda de tocar a solo, transportando este acto – que, inicialmente, se resumia, apenas e unicamente, à interpretação – para domínios criativos e de improvisação, realizados na solidão do artista e do seu instrumento, qual acto de pura poiesis.  

São várias as referências que se poderiam nomear para enquadrar este tipo de registos. A título de exemplo, num domínio clássico, as obras de Godowsky, Sorabji, Feinberg e Alkan são lições superlativas de composição e execução – pianistas-compositores ainda desconhecidos do grande público, que, pelo contrário, facilmente reconhecerá os nomes de Chopin ou Rachmaninoff -, que nos dias de hoje são interpretados por pianistas de extremo virtuosismo técnico e interpretativo, tais como Marc-André Hamelin.

Por outro lado, na cena jazzística e de improvisação livre, são inúmeros os nomes que exploraram este que é – tal como acertadamente referido em notas de apresentação – o registo “mais difícil de ser categorizado na história da música”: do virtuosismo clássico-jazzístico dos vários solos de Keith Jarret, à abordagem dissonante de Paul Bley em Open to Love (ECM, 1972), até aos mais tradicionais – mas não, por isso, menos interessantes – solos de Bill Evans. Em suma: esta seria uma lista que facilmente poderia ser estendida ad aeternum, referenciando trabalhos de nomes sonantes que se arriscaram por solos de piano e que os consumaram de modo variável em termos qualitativos.  

Existem, ainda, inseridos num contexto que vai beber à improvisação jazzística contemporânea, exemplos mais recentes deste tipo de obras, entre os quais são excelentes amostras de casos bem-sucedidos o Arborescence de Aaron Parks (ECM, 2013), o Promontoire de Benjamin Moussay (ECM, 2020), e o Earworm da sul-coreana Eunyoung Kim (Mung Music, 2020) – este último um álbum bastante subvalorizado, porém uma autêntica pérola dentro deste tipo de registos pianísticos. 

Por fim – viajando, agora, para o panorama português -, os álbuns a solo de Bernardo Sassetti serão sempre, indiscutivelmente, exemplos de extrema genialidade e sensibilidade. Desta feita, recentemente foi a vez da pianista e compositora portuguesa Luísa Gonçalves se aventurar por esta senda, momento que ficou registado num álbum intitulado UNNO, uma edição da Trem Azul. 

São sete os temas que formam este disco, na sua grande maioria faixas que se encontram entre os cinco e os seis minutos de duração (à excepção da peça final, “Circle”, que se fica pelo minuto e meio). Numa perspectiva longitudinal, a música de Luísa é melancólica, melodiosa, e, quando necessário, harmoniosa. Além disso, UNNO não é um álbum de puro exibicionismo técnico (apesar da virtude técnica estar presente, é certo), mas, sim, prevalentemente, de exposição emocional. Assim, Luísa não cria propriamente momentos de profunda tensão, introduzindo, apenas, dissonâncias tópicas que permitem avançar as peças, resolvendo aquelas, sempre que possível, na próxima nota ou acorde. Luísa prefere, ao invés, o relaxe e a coerência, a consonância e a ordem, a concordância e a virtude. UNNO, por conseguinte, é uma história bem contada e adjectivada: apesar de não ser de todo disruptiva ou desconcertante, está envolta numa – essa sim, inquietante – beleza, matéria de alguém inspirado e que revela um enorme tacto e sensibilidade para o abstracto das emoções. Deste modo, UNNO é um trabalho bem conseguido e que me deixa bastante interessado em ouvir futuras obras da pianista. Como faixas favoritas escolho o tema homónimo e a interpretação – profundamente tempestuosa, mas de uma elegância e graciosidade arrebatadores – do tema “Laura”, composto por David Raskin. 

João Morado

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