João Lencastre – No Gravity

Sem gravidade andamos à deriva, flutuando num vazio caracterizado por constância de movimento, sem aceleração, e, portanto, sem mudanças de direcção. Isto, evidentemente, assumindo ausência absoluta de outro tipo de interacções, que possam afectar dita cinemática. Porventura seja esta uma interpretação demasiado literal do título de No Gravity último álbum do baterista e compositor português João Lencastre -, mas que não deixa, apesar disso, de ser uma útil metáfora para descrever certas nuances deste trabalho.  

Por um lado, é aparente que a grande mudança de direcção neste disco se deu justamente antes da sua escrita e gravação, num plano conceptual, pois, tal como descrito em notas de apresentação, este é um trabalho que “explora diferentes possibilidades sónicas, onde elementos acústicos e electrónicos se fundem, abrindo novos caminhos para a improvisação.”. Está claro, por conseguinte, que houve uma clara intencionalidade de perseguir um novo caminho, uma nova abordagem, onde a electrónica surge, assim, como um novo elemento extra – em trabalhos anteriores menos dominante -, trazendo consigo um novo leque de possibilidades sónicas, tímbricas, técnicas e combinatórias. A título de exemplo, compare-se a sonoridade deste No Gravity com a dos seus dois predecessores – Song(s) of Hope (Clean Feed Records, 2019) e Parallel Realities (FMR Records, 2019) -, ambos transversalmente e abundantemente mais caracterizados por uma roupagem prevalentemente acústica, mais melódica e harmónica, menos textural e abstracta.  

Por outro lado, sob um outro prisma, seria profundamente injusto afirmar que a viagem deste disco seguiu imperturbável a partir do instante em tal mudança conceptual ocorreu. Uma pista que esclarece abertamente o porquê desta inverdade é nos dada, novamente, em notas de apresentação, onde está explícito que esta abordagem “abre novos caminhos para a improvisação”. Concluímos, então, que na ausência de uma interacção de maior (a gravidade, essa mesmo), No Gravity sofreu a influência de pequenas micro-interacções – chamemos-lhes assim, na ausência de um termo mais preciso -, que o vão desviando da “rota original”. Deste modo, este é um álbum que se adapta discretamente, como que reagindo a pequenos estímulos, pequenas descobertas, pequenas atracções e repulsões, subtis ajustamentos, justuras infinitesimais. Estas não serão, por hipótese, evidentes para ouvidos mais desatentos, mas, afinal, também não terá sido para esses que esta obra foi composta. 

João Lencastre surge, então, como o artífice deste No Gravity, tocando bateria e percussão electrónica. A acompanhá-lo encontram-se Rodrigo Pinheiro, ao comando do piano, e João Hasselberg, no contrabaixo, baixo eléctrico e electrónica – dois nomes sonantes que haviam já participado em trabalhos anteriores de Lencastre (nomeadamente em Parallel Realities). Juntos formam um trio com óbvio entrosamento e direcção, um pequeno ensemble eletroacústico gerador de contemporaneidades, música avant-garde, texturas e granularidades, nitidamente afastado de concepções tradicionalmente mais jazzísticas, exploradores de topologias convexas que os afastam de sonoridades nucleares, cosmonautas de territórios limítrofes – talvez mesmo do ponto de vista de quem já transcendeu o ponto de não-retorno -, cientistas de novas e singulares hipóteses sónicas. 

Ao iniciar a audição do álbum, encontramo-nos – perdõem-me o trocadilho – com “First Encounter”, tema que estabelece as primeiras impressões desta viagem, através das quais nos apercebemos que se irá realizar por domínios de experimentação e de vanguarda. “Harnessing Fear” acumula progressivamente tensão, criando uma atmosfera negra e sinistra, adensada pela rastejante electrónica de Hasselberg, os cromatismos obscuros de Pinheiro, e pela tempestuosa bateria de Lencastre. Já “Arcade Games” remete-nos para jogos de entretenimento, com uma interessante modelação da sonoridade 8-bit vinda da parte de Lencastre, que recorre a pads electrónicos para a fazer. Pinheiro alterna entre profusão cromática e motivos circulares, definindo, assim, as tonalidades do tema. “Trying to Go Unnoticed” apresenta uma dinâmica subtil e discreta: Lencastre representa movimentos rápidos e assertivos, Pinheiro informa pontualmente, Hasselberg explora rugosidades e sons de comunicações espaciais. “Slam Dance” começa com uma investida de Lencastre pelo seu kit acústico de bateria, prontamente acompanha por Pinheiro que comunica praticamente a duas vozes, com patente distinção entre os discursos dos graves e dos agudos. “Floating” assemelha-se em forma a “Arcade Games”, sendo, no entanto, aquele mais expressivo do que este, com o trio a diversificar em matéria e conteúdo. Em “Empty Streets”, o “vazio” é simbolizado pela (quase) integral ausência da percussão de Lencastre, que emerge apenas com texturas tópicas – mais visíveis no final do tema -, acompanhando o contrabaixo de Hasselberg, tocado em arco, que exerce a dialética juntamente com Pinheiro, num tema que ganha forma à medida que se desenrola. “2020” é uma faixa caótica – chegando mesmo a soar cacofónica -, condigna do título que lhe foi concedido. Para terminar o disco, o tema homónimo, delicado e melódico, suave e reconfortante; um voluntário regresso a paisagens menos inquietantes nas quais Pinheiro sussurra – maioritariamente – consonâncias, diante de um vento de fundo electrónico, que, no seu todo, se materializa num iluminado retorno a casa. 

No Gravity é um álbum que nos coloca à deriva, retirando-nos peso e impondo-nos leveza, transportando-nos para o profundo do vazio para aí nos largar e sujeitar ao acaso do universo. No Gravity é o som que ouviríamos caso a Teoria do Éter se tivesse revelado correcta, e se, em lugar do vácuo, existisse um meio de transmissão que nos permitisse ouvir os sons do espaço sideral. No Gravity é o álbum que Mark Guilliana ousaria ter feito se não tivesse tido de se preocupar com matérias comerciais. 

João Morado