Jazz ao Centro 2020 – Mário Costa “Oxy Patina”, com Benoît Delbecq e Bruno Chevillon

Fotografia: João Duarte / JACC

Havia já vários meses que muitos não entravam numa sala de espetáculos para assistir a um concerto ao vivo. As saudades eram muitas, apesar da conjectura actual nem sempre motivar ou permitir a regularidade deste hábito que, pré-pandemia, se realizava com uma frequência quase obsessiva. Este regresso aos concertos não poderia ter sido consumado da melhor forma, dada a oportunidade de ouro que foi assistir a Mário Costa a apresentar o seu Oxy Patina, actuação integrante do programa do Festival do Jazz ao Centro, uma verdadeira pérola na cultura da cidade dos estudantes, responsável por trazer à região centro jazz essencial de audição obrigatória.

Ao som das primeiras notas, as constatações do que é experienciar música tocada ao vivo assomaram-se, novamente, como prontamente óbvias, apesar de, até certo ponto, estarem já por muitos esquecidas, tal a distância temporal a que se encontra a última memória de uma experiência semelhante – sem sombra de dúvida, não há nada como música tocado ao vivo: a oportunidade de observar, in loco, as performances de magníficos músicos; a crueza do momento, que expõem a nu as execuções e interpretações dos músicos, nestas situações desprovidos de artifícios de (pós-)produção; a acústica da sala, sempre um elemento extra, reprodutora de certas nuances sónicas;  e, por fim, o público, pois claro, que quer nas suas reacções à música quer na energia que gera é parte fulcral e integrante desta jornada. A música ao vivo é, indubitavelmente, o estado-último de apresentação de música, e o derradeiro teste quer para os próprios artistas, quer para os ouvintes.

Num Teatro Académico Gil Vicente a meio-gás e com o público reduzido a mais de metade – mas entusiasmado q.b., justiça lhe seja feita -, o baterista e compositor Mário Costa apresentou-se – como, desde já, seria de esperar – em formato de trio, acompanhado pela dupla gaulesa formada por Benoît Delbecq e Bruno Chevillon. Desta forma, à formação que gravou o registo, surgiu, então, o contrabaixista Bruno Chevillon, em substituição do guitarrista Marc Ducret. A ambiência do concerto foi semi-intimista, com o teatro conimbricense a ser demasiado grande para um ambiente verdadeiramente familiar, e com o público, também – salvaguardando a imposta profilaxia de higienização -, demasiado afastado entre si para formar um elemento homogéneo. Os tempos são estranhos, mas a música, essa, sempre se adapta e sujeita. Ademais, e afinal de contas, o quão íntimos e próximos do público se sentirão os próprios músicos quando, diante de si, encontram senão um grupo de mascarados?

A actuação iniciou-se tal e qual o disco – editado pela portuguesa Clean Feed Records, em 2018 -, com “Pigmented”, tema que começou por definir as latitudes por onde se iria realizar esta performance. São estas coordenadas atmosféricas, altamente contemporâneas, de um detalhado e minucioso cuidado na criação e destruição de momentos de maior euforia e explosividade. O trio é controlado, sóbrio, comedido. A exuberância é deixada para os momentos-chave, com o óbvio virtuosismo da velocidade e profusão a ser, amiúde, rejeitado em detrimento de uma abordagem em que o trio impõe dinâmicas subtis, mas altamente informativas e expressivas – sinais de experiência e intencionalidade. Seguiram-se os temas “Forest Marble”, “Ant Dance” e “Liquid Stone”, com Mário Costa, à direita do público, a demonstrar-se um fantástico percussionista, líder de banda assertivo, de uma segurança aos comandos do seu kit de bateria expandido com inúmeros instrumentos, objectos percussivos e alguma electrónica, que rendeu o público com compings bem conseguidos e texturas de uma originalidade que estimula a, com os olhos, indagar como estarão a ser produzidas. No meio do palco, no contrabaixo eléctrico e assistido por um conjunto de pedais de efeitos, Bruno Chevillon, músico de uma extraordinária técnica e concentração, não só um autêntico pilar rítmico mas também, ele próprio, fonte de melodias e de perspicazes intervenções. À esquerda da plateia, Benoît Delbecq, exímio mesclador da acústica e da electrónica – uma verdadeira máquina electroacústica, portanto -, que ora se aventurou por cascatas de escalas no seu piano de cauda, ora por investidas nas teclas dos sintetizadores, quando não de modo concomitante. Delbecq recorreu, além disso, a um Akai MPK Mini, que usou quer para desencadear samples ou gravações de campo – usados na contextualização dos temas -, assim como como teclas geradoras de comunicações espaciais e inter-galácticas. Uma fusão interessante e bem polida.

Para terminar a viagem, mais dois temas: “Astrolábio” – que Mário Costa confessou ter sido escrito em homenagem ao seu avô, o seu instrumento de navegação – e, para rematar o corpo principal da actuação, “Erosion”. Neste segmento, houve ainda direito a um dos momentos altos da noite, consumado num solo de Mário Costa – que o iniciou com baquetas de feltro, trocadas, na parte final, pelas tradicionais baquetas de madeira -, no qual o percussionista discursou com abundante riqueza tímbrica, rítmica e textural – um autêntico deleite de se ver e ouvir! Houve ainda direito a encore, com o trio a tocar “Abismo”, faixa que também termina Oxy Patina e se reveste de uma paisagem balladesque que, em certos momentos, degenera em topologias abstractas e exploratórias.

Durante pouco mais de 1 hora, Mário Costa demonstrou o porquê de ser um dos mais interessantes bateristas compositores portugueses da actualidade.  Este é jazz português, contemporâneo, criativo e original, muito bem composto e tocado. O concerto repetir-se-á hoje no Centro Cultural de Belém – é ir que vale bem a pena!

João Morado