Horn of Plenty – (The) Mudguards / Little Skull / Moniek Darge

(The) Mudguards – On Guard

No seu ensaio intitulado The Weird and The Eerie (2016), Mark Fisher (1968-2017) – um dos intelectuais mais lúcidos e acutilantes do início do século XXI – reflectiu sobre as diferenças entre o weird e o eerie, recorrendo a diferentes objectos artístico-culturais (discos, livros, filmes, entre outros) para o fazer. Dadas as características sónicas e conjecutra que rodeiam o On Guard dos (The) Mudguards, não seria descabido acrescentar um hipotético epílogo ao livro que contivesse uma referência a este LP, dado que é um perfeito exemplo de um objecto que consegue popular com abrangência o domínio do weird. A título de exemplo – e o que se segue poder-se-ia também utilizar para descrever On Guard – Fisher classificou o Grotesque dos The Fall como um disco na categoria do weird, visto ser um álbum estruturado “à volta da oposição entre o quotidiano e o grotesco.”. Esta classificação é, então, justificada por Fisher pelo facto de o grotesco ser talvez “melhor compreendido como uma forma particular do weird”.  

Por sinal, ambos os discos pertencem à mesma época, com o Grotesque a ter sido lançado em 1980, ao passo que On Guard é composto por temas que foram gravados entre 1983 e 1988, no contexto de uma Inglaterra pós-industrializada que abriu espaço para o aparecimento das primeiras squats e raves em armazéns; de um mundo governando por Thatcher, Reagan e Bush que liberalizou o mundo do trabalho através da secundarização dos direitos dos trabalhadores e oposição aos sindicatos; de uma década onde a electrónica passou de experiência de laboratório a parte integrate da paisagem musical – um conjunto de factores que, nas suas impenetráveis interrelações e consequências, com certeza, contribuíu para alimentar a veia dissidente deste duo desconformado e disruptivo. 

Os (The) Mudguards eram formados por Nelson Bloodrocket e Reg Out (nomes fictícios, aparentemente),  activos no este de Londres e em Essex entre 1983 e 1988. São poucos os registos que deixaram para a história, sendo o Western Cultural Noise (1984) o único que consta na base de dados do discogs. Regendo-se pela ideia de “máximo conteúdo com equipamento mínimo”, este foi um duo que mesclou o mundano e bizarro, o comum e o extravagante, o ordinário e o exótico, recorrendo a equipamento de som vintage e electrónica criada através circuit-bending para o fazer. A estranheza deste registo emerge imediatamente no primeiro tema, “Any Old Iron(y)”, uma faixa onde a uma matriz rítmica experimental é, ironicamente, sobreposta uma canção que poderia facilmente ser entoada num pub por um grupo de foliões. “Birthday Smile” é uma faixa industrial, quase proto-techno, repetitiva e lancinante. Já em “Property Land” e “Feeling the Pinch” o duo explora paisagens electrónicas experimentais, sobrepondo, por vezes, vozes carregadas de efeitos e distorções. “Theme from the Big Trigger” aproxima-se de uma génese synth-pop e “On Guard”, tema homónima, enquadra-se no post-punk britânico dos anos 80. Por fim, chama-se e canta-se por Mr. Wilson” no tema final, outro curioso exemplo da interface entre o grotesco e o quotidiano explorada pelos (The) Mudguards. 

Pela sua estranheza, contexto histórico e valor cultural, On Guard  é um dos álbuns mais interessantes que ouvi nos últimos tempos – muitíssimo recomendado. 

Little Skull – How We Used To Laugh b​/​w Haunted and Defiant

Little Skull é o projecto a solo de Dean Brown, neozelandês que, apesar de ter um passado musical ligado à cena underground e DIY do seu país natal, actualmente reside em Londres, facto que potenciou e ajudou à consumação deste lançamento. O trabalho discográfico do músico conta já com uma longa lista de edições limitadas de LPs e singles, na sua maioria trabalhos que transgridem o campo musical pois são acompanhados por caixas e capas muitíssimo trabalhadas e de beleza notável. A associação do artista à Horn of Plenty ocorreu numa história carregada de ironia em que Nick Hamilton, cabeça por detrás da editora, descobriu que o músico gravava os seus trabalhos num local perto de sua casa, na capital inglesa. A somar a esta coincidência, Hamiltonian tomou também conhecimento de que “as intrincadas capas [de Little Skull] manufacturadas artesanalmente são feitas em Londres, enviadas para a Itália e depois [novamente] para Londres, onde eu as comprava.” Assim, Hamilton juntou o útil ao agradável e eis que surgiu mais um sete polegadas de Little Skull, edição que constitui o segundo lançamento da Horn of Plenty.  

O lado A apresenta um tema de drone-folk-psicadélico, intitulado “How we used to laugh”, em que a metálica base cordofónica é pontuada por melódicos sinos e murmúrios que, subtilmente, surgem e desvanecem, numa dinâmica similar a pensamentos que vão e vêm, mas que não transportam consigo uma carga emocional suficientemente forte para que a eles nos prendamos. Por outro lado (literalmente), no lado B escuta-se “Haunted and Defiant”, tema que se arrasta através de acordes de guitarra tocados sem pressa nem destino, acompanhados por um violino drone que adensa a atmosfera da faixa, carregando-a de peso e lentidão. O ambiente é mais negro que em “How we used to laugh”, transmitindo sensações quase letárgicas, ou uma inquietude que em momentos paradoxalmente se confunde com tranquilidade.   

Interessante single de Little Skull, aqui lançado numa edição especial de 100 unidades acompanhada de uma espectacular caixa feita à mão – um pictoresco e bonito diorama que ficará bem em qualquer colecção. Infelizmente, este registo encontra-se esgotado… eu próprio tive de recorrer ao mercado de segunda mão para o adquirir, acabando por fazê-lo a um preço que torna este single no mais caro que comprei até ao momento – valeu a pena, no entanto. 

Moniek Darge – Bratschebraut

Como terceiro lançamento, a Horn of Plenty apresentou Bratschebraut, um álbum que reúne composições da autoria de Moniek Darge e que pode ser considerado mais uma experiência sonora do que propriamente música per se. Darge é uma artista belga, actualmente professora na Hogeschool Gent, que tem também uma longa carreira como compositora e violonista, e, ainda, como artista, tendo o seu nome associado a várias performances e instalações artísticas. É a sua faceta ligada às artes sonoras que é aqui exposta num registo constituído por temas gravados durante um período de sete anos e que não foram concebidos, à partida, com o propósito de serem reunidos para formarem um álbum. São quatro as composições que compõem este disco, tendo sido gravadas na mesma era que o seu clássico Sounds of Sacred Place, o primeiro LP de Darge, datado de 1987, e nos quais a artista Belga fez uso electrónica, voz, violino e diversas fitas. Assim, apesar da independência a priori de cada um dos temas, a audição deste LP como parte integrante de uma única obra não é descabida, pois os temas revelam entre si coerência ao nível da estética e instrumentação.  

O tema de abertura, “Cloud”, transporta-nos para as nuvens, fustigando-nos com a modelação do vento frio, acompanhada pelo violino tocado em arco, altamente cénico e textural. Esta simulação do vento advém de Darge ter descoberto que “pressionando e movendo lentamente o arco no cavalete do violino num ângulo de 45 graus produzia sons que [lhe] relembravam de ventos fortes a perseguirem as nuvens”. Além disso, as fitas usadas continham sons do Eurus Pneumaphone, um instrumento inventado por Godfried-Willem Reas que converte o movimento do ar em vibrações sonoras.  Em “Dark Waves”, uma faixa em que a artista quis perpetuar o seu interesse por países remotos, é usado o violino, uma flauta de plástico artesanal, e voz. Darge usa, também, a electrónica para produzir oscilações contínuas e de frequência variável, às quais são sobrepostas vozes ininteligíveis e ruídos drones. A tensão da faixa é, gradualmente, incrementada, culminando num final sufocante e desconfortável. Na primeira parte do tema homónimo do disco, “Bratschebraut”, Darge explora ao limite as potencialidades tímbricas da viola, utilizando-a como meio para a reprodução de sons associados ao ranger de portas, ao serrar de madeira ou a zumbidos de insectos. Já na segunda parte da faixa, Darge recorre, principalmente, à voz como meio de expressão, produzindo sussurros, gritos e gemidos, originando uma amálgama de sons de difícil interpretação e que nos leva a perguntar que raio se está aqui passar – é pura experimentação, talvez espontaneamente produzida, sons para uma futura civilização se indagar sobre os nossos propósitos e crenças. “Man Mo 2” finaliza o álbum num longo tema que se estende ao longo de pouco mais de 20 minutos, e que serve de síntese às experimentações das faixas anteriores: escutam-se sinos e o chilrear de pássaros; o violino é tocado ora em arco, ora em pizzicato, sempre cru e impessoal; gravações de campo são escutadas como complemento e contextualização – outro tema nada acessível, mas uma estampada demonstração do carácter de descoberta e, até mesmo, pueril – no sentido de ser guiado pela curiosidade – deste registo, onde a artista, dado a fase em que foi concebido, parecia estar em busca da sua estética sonora, aqui desenvolvida de forma singularmente íntima, experimental e performativa.  

Bratschebraut é um interessante documento histórico, completamente alheio a cânones e padronizações – pura experimentação e descoberta, construção e destruição. Ideal para ser ouvido como estímulo de sensações – por momentos, faz-nos sair do domínio concreto da realidade, levando-nos a explorar territórios abstractos e universos sinistros. 

João Morado