Gearbox Records – Alan Wakeman / Charles Tolliver

Alan Wakeman – The Octet Broadcasts – 1969 and 1979

O jazz do Reino Unido está em todo o lado: vemos os seus músicos serem caras das mais trendy campanhas de moda e publicitárias, ouvimo-lo nas rádios ditas comerciais, faz capas de revistas que não são da especialidade e, não menos importante, sentimos a sua presença e influência no tecido cultural da época. Podemos dizer, inclusive, que o jazz britânico é, agora, mainstream, com todas as óbvias desvantagens que isso acarreta: os mais desconfiados afirmam que perdeu a génese jazzística e que esta é, agora, apenas mais um dos elementos da complexa mescla que constitui a sua versão actual. Enfim, categorizações à parte, a verdade é que o jazz que se faz no Reino Unido continua a ser de grande qualidade e a marcar tendências. Porém, longe se encontram os tempos em que músicos muitíssimo talentosos como Ronnie Scott, Tubby Hayes ou Alan Wakeman (por ordem cronológica) viviam na sombra do estrelato do jazz americano ou, até mesmo, do jazz europeu para o qual os anos 60 foram de definição e a década de 70 de cristalização de uma identidade. Ademais, verdade seja dita, a música dos intelectuais britânicos sempre foi a música erudita, com o jazz a surgir na paisagem sónica de forma muito semelhante àquela que ocorreu na fonte, estando maioritariamente associado aos clubes e à vida nocturna. É, portanto, com grande agrado e entusiasmo que se recebem actos de revivalismo desse período tão subvalorizado do jazz britânico: veja-se, por exemplo, a recente edição da colectânea The Complete Fontana Albums de Tubby Hayes pela Decca Records, a qual foi concebida a partir das fitas originais que foram submetidas a um processo de remasterização nos estúdios da Gearbox Records. Outro memorável exemplo deste revivalismo vem agora a público com The Octet Broadcasts – que, à semelhança do The Complete Fontana Albums, sofreu o mesmo processo de remasterização das fitas originais nos estúdios da editora londrina -, um álbum de música inédita do saxofonista britânico Alan Wakeman. 

Alan Wakeman tem sido activo na cena musical britânica desde os anos 60. O músico – que, a título de curiosidade, é primo de Rick Wakeman, teclista dos Yes e que ensinou Alan a tocar clarinete – é frequentemente associado ao baterista de free jazz Paul Lytton, assim como ao contrabaixista Graham Collier, aos míticos Soft Machine (com quem gravou o álbum “Softs”), e ao pianista Mike Westbrook. Neste The Octet Broadcasts são reunidas duas sessões de rádio gravadas para programas da BBC que ocorreram em 1969 e 1979, e nas quais Wakeman apresentou dois octetos distintos que representavam os músicos de ouro do jazz britânico daquelas épocas. As composições escritas por Wakeman reflectiram o conceito de Ellington de “músicos a fazerem a música”, isto é, tal como explicado pelo próprio à London Jazz News, “Duke Ellington expandiu o conceito de liberdade em pequenos ensembles através da apresentação de arranjos completos dedicados a um músico e à sua abordagem exclusiva. Simplesmente tentei manter a tradição – liberdade dentro de uma estrutura ‘útil’. ”

No concerto de 1969, gravado para o programa Jazz Workshop e apresentado por Brian Priestley, Wakeman (saxofone alto e tenor), à data um jovem de 22 anos, tocou ao lado de Alan Skidmore (saxofone tenor), Art Themen (saxofone tenor), Henry Lowther (trompete), Paul Rutherford (trombone), Gordon Beck (piano), Chris Lawrence (contrabaixo) e Nigel Morris (bateria). São três os temas apresentados – “Dreams”, “Forever” e “Merry-Go-Round” – que sonicamente oscilam entre o post/hard bop e momentos de exuberante e pura cacofonia próximos do free jazz. Já no concerto  de 1979, gravado para o programa Jazz in Britain e apresentado por Charles Fox, Wakeman (saxofone tenor e clarinete) fez-se, novamente, acompanhar por Skidmore (saxofone tenor, flauta e gongo) e Rutherford (trombone e gongo chinês),  assim como por Paul Nieman (trombone e gongo chinês), John Taylor (piano e castanholas), Lindsay Cooper (contrabaixo e gizos), Mike Osborne (saxofone alto, clarinete e tamborim) e Paul Lytton (bateria). O jazz dos cinco temas tocados – “Chaturanga”, “Manhattan Variation”, “Vienna”, “Robatsch Defense” e “Kingside Breakthrough” – é claramente mais moderno, incorporando, inclusive, influências orientais, consequência de uma tour pela Índia que Wakeman realizou juntamente com Collier, em 1979. Mais uma bela sessão, pois claro.

The Octet Broadcasts é um registo essencial da história do jazz britânico e um disco de audição obrigatória. O seu valor é inegável, não de uma perspectiva puramente histórica, mas também pela intrínseca qualidade musical e performativa. Não se pode também deixar de enaltecer o fantástico trabalho que a Gearbox Records tem desenvolvido na recuperação destes importantes pedaços de história que, caso contrário, permaneceriam perdidos no tempo e na frenética roda de consumo rápido da sociedade contemporânea. Que venham mais destes!

Charles Tolliver – Connect

Foram precisos 11 anos para que o trompetista Charles Tolliver regressasse às gravações e nos presenteasse, mais uma vez, com o intenso sabor do seu jazz. A julgar pela bela lição de post bop com que nos prenda neste Connect, podemos afirmar, com segurança, que a espera valeu a pena, embora desejemos que tão longo hiato não se volte a repetir. A gravação do disco foi realizada no contexto de uma tour, em Novembro de 2019, pelo Reino Unido, que o instrumentista e compositor realizou juntamente com Buster Williams (contrabaixo), Lenny White (bateria), Jesse Davis (saxofone alto) e Keith Brown (Piano). A este elenco de luxo juntou-se, especialmente para a gravação do disco, Binker Golding, que tocou saxofone tenor em dois temas (“Emperor March” e “Suspicion”). Desta forma, aproveitando a presença do trompetista e da sua banda em Londres, a Gearbox Records & Darrel Sheinman lograram a gravação deste tão esperado disco onde Tolliver demonstra sagazmente a necessidade da sua presença na actualidade do jazz.

Em termos musicais as composições de Connect são modais, com melodias coloridas e cativantes, e arranjos de um pormenor e detalhe que revelam a experiência de Tolliver com big bands (aliás, “Blue Soul” e “Emperor March” haviam sido já apresentadas neste formato). Os momentos de improvisação – que são frequentes e transversais a todos os temas – estão inseridos numa típica estrutura de head-solo-head, transpirando grandeza e inspiração. A atmosfera dos temas é, de modo geral, vibrante e triunfante: não há espaço para nostalgia ou tristeza; respira-se boa disposição, alegria e confiança. Ademais, facto curioso: Tolliver escreveu ghost lyrics para três das quatro composições que formam este disco, o que nos ajuda a contextualizar a temática de cada um deles e permite, assim, que o ouvinte transponha a opaca barreira que, na música instrumental, amiúde o separa da essência inspiracional do que escuta.

O tema de abertura, “Blue Soul”, é groovy e pulsante – “Blue Soul, makes me feel the pulse of life” -, com o grupo a servir-se da magistralidade musical da composição para incorrer numa enérgica e entusiasmante apresentação. “Emperor March” é uma composição inspirada na caminhada que os pinguins-imperadores fazem anualmente em direcção à Antártida para se reproduzirem e, assim, assegurarem a sobrevivência da espécie – “Each year they come to that land they call Antarctica/marchin’ to chosen place givin’ birth to their new Emperor Penguin’. A epicidade desta jornada é capturada pela melodia principal do tema, que abre espaço para que os sopros e o piano, à vez, improvisem livre e brilhantemente. “Copasetic“ apresenta mais reminiscências de hard bop – género que tanto distinguiu o tocar de Tolliver nos anos 60 ao lado de Jackie McLean – do que as restantes composições, com o trompete e o alto a surgirem muitas vez em uníssono e o baixo a ser tocado em mínimas, porém com o grupo a transitar para um abordagem modal aquando da hora de improvisar.  “Suspicion” fecha o disco num ambiente misterioso (“Jive contrive and not too cool, Suspicion all around”) que, gradualmente, se desembaraça do sufocante peso que inicialmente carrega para terminar num tom de superação e vitalidade (“Know for sure on what you hear, never speak what you don’t know, rise above the tricks that keeps us all apart, NO SUSPICION”).

Charles Tolliver prova em Connect que a sua música nunca foi tão presente e necessária: não é um trabalho arrojado do ponto de vista formal, mas a qualidade das melodias, dos arranjos, e das interpretações fazem-nos ter esperança que possamos ouvir novas composições do trompetista num futuro próximo. Uma lição de jazz, uma lição de post bop.

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