RareNoiseRecords – Bobby Previte, Jamie Saft, Nels Cline / Sonar with David Torn

Bobby Previte, Jamie Saft, Nels Cline – Music From The Early 21st Century

“Quando as gerações futuras ouvirem os sons do início deste milénio, que música restará para definir a era?”. É uma questão pertinente, carregada de futurismo e faro visionário, que nos é lançada nas notas de apresentação de Music From the Early 21st Century, álbum capturado ao vivo durante uma curta tour pelo noroeste dos Estados Unidos, no início de 2019, que reuniu Bobby Previte (bateria), Jamie Saft (Hammond organ, Fender Rhodes e MiniMoog) e Nels Cline (guitarra eléctrica e efeitos),  trio de músicos habituados a explorações pelo domínios do jazz e avant-garde. Apesar da ressalva de que, dependendo do quão afastados nos encontremos do ano 2020, este poder ser ainda considerado, legitimamente, parte do início do século XXI, é, porém, difícil não remeter a sonoridade aqui apresentada para uma recente altura da história que viu, não só, surgir bandas como Earthless, em 2001, ou os portugueses Black Bombaim, em 2008, mas, também, em que grupos emblemáticos da estética rock stoner/psicadélico nos anos 90, como Sleep ou Colour Haze, ganharam visibilidade junto de um público mais mainstream. Recorro a estas referências pois este disco é uma viagem de rock psicadélico instrumental, com certos toques de uma vanguarda mais ousada e experimental, assim como com certas reminiscências de harmonias e progressões mais jazzy. No entanto, acima de tudo, o cativante de Music From the Early 21st Century é o facto de uma improvisação de carácter totalmente exploratório ter resultado numa tão interessante navegação cósmica que passo agora a descrever…

“Photobomb” inicia a jornada num ritmo uptempo para que o trio dê ares de sua graça e comece definir o ambiente do concerto. Desta feita, por entre uma chuva de efeitos, riffs e progressões épicas, o grupo avança para “Paywall”, faixa que tem como base uma fusão de hard rock, música experimental e rock psicadélico. Já “Parkour” tece um tecido etéreo que funciona como preâmbulo para a seguinte viagem espiritual – “The Extreme Present” -, onde a bateria de Previte se assume krautrockiana, a guitarra de Cline ora se aventura por solos psicadélicos, ora se prende num repetitivo loop – simbolismo do mote “viagem sem movimento” tão presente neste disco -, e as teclas lisérgicas de Saft regressam aos anos 60 para nos trazer à memória Ray Manzarek. “Totes” explora harmonias mais jazzy e permite que trio frene o embalo para que, por instantes, regresse à terra. “Occession” descola com lentidão em direcção a uma espiral de 14 minutos de experimentação, psicadelismo e cacofonia que poderia muito bem ter saído de um disco dos Gnod. “The New Weird” é de carácter mais espiritual e sideral, momentum que é transportado para “Machine Learning” onde são exploradas melodias orientais que degeneram numa improvisação drone. Já “Woke” acumula, progressivamente, energia potencial que é, por fim, libertada sob a forma de energia sonora. “Flash Mob”, faixa términa, substitui a estética psicadélica pela industrial – escutam-se sons semi-robóticos, beeps e boops, ruidos metalizados -, para, por fim, fechar o ciclo e regressar à sonoridade psicadélica de partida.

Em pleno 2020, numa altura em que o rock psicadélico instrumental readquiriu o estatuto underground que possuía no período do “Early 21st Century”, é interessante escutar uma abordagem fresca a este tipo de viagens cósmicas e abstractas, especialmente vindo da parte de um trio do qual sabemos que esta é apenas uma paragem esporádica, a ser adicionada ao já eclético e diversificado currículo que cada um dos músicos possui. Assim, não posso deixar de recomendar a que nos tornemos cosmonautas por momentos e que embarquemos nesta jornada que se constrói sobre ela própria e ganha significado há medida que progride. Ah! E um facto curioso: a imagem da capa, capturada pelo telescópio espacial Hubble, é o registo de uma das mais primordiais imagens que temos, até à data, do nosso universo, revelando o nascimento galáxias pouco mais de meio bilião de anos após o Big Bang. Maravilhoso, não é?

Sonar with David Torn – Tranceportation vol. 2

Tranceportation vol. 2 marca mais uma paragem no percurso da banda suíça Sonar – constituída por Stephan Thelen (guitarra), Bernhard Wagner (guitarra), Christian Kuntner (baixo) e Manuel Pasquinelli (bateria e percussão) – que aqui se junta, novamente, ao guitarrista David Torn para dar continuação à senda iniciada no anterior volume. Esta é uma colaboração que se tem revelado interessante devido ao facto de Torn adicionar uma variável livre à estruturada e matemática sonoridade dos Sonar.

A estrutura composicional de Tranceportation vol. 2 é complexa, desenvolvendo-se por paisagens que claramente vão beber ao metal progressivo e que, aqui, se adornam de uma aura espacial, formando um álbum altamente lógico e cerebral, como se de um complexo puzzle se tratasse em que, apesar da inerente dificuldade à sua resolução, todas as peças, quando unidas correctamente, encaixam com suavidade e naturalidade. A sonoridade do grupo é, regra geral, límpida e cristalina, uma estética que realça todo e qualquer detalhe por eles tocado e que foi uma abordagem já tida no anterior volume. Ademais, os compassos são complexos e rigorosamente definidos pela mecanicidade semi-industrial da percussão; o baixo é groovy e redondo; as guitarras entrelaçam-se em camadas que sustentam melodicamente os temas.

Estruturalmente as composições de Tranceportation vol. 2 evoluem da forma que seria expectável numa sonoridade tradicionalmente progressiva: os trítonos debitados pelas guitarras de Thelen e Wagner criam dissonância e tensão, formando camadas que se sobrepõem e justapõem para tecer narrativas que exploram motivos melódicos e estruturas rítmicas. A interacção entre Pasquinelli e Kuntner, para além dos óbvios propósitos de suporte, é prolífica em gerar dinâmicas polirrítmicas. Torn é o elemento mais livre de todo o grupo, quer aventurando-se por solos individuais carregados de efeitos e distorção, quer juntando-se ao resto do grupo através de live looping. Já em termos de compassos e métricas, os temas são bastante diversificados: nalgumas faixas o grupo parecer saltar entre vários compassos (e.g., “Triskaidekaphilai”), ao passo que noutras entrega estruturas mais óbvias como, por exemplo, o compasso ternário composto de “Slowburn”.

Tranceportation vol. 2 é um álbum ideal para amantes de Tool ou da sonoridade que o Devin Townsend Project propõe em Ki. Para o escutar, nada melhor que seguir as sugestões de Thelen que nos recomenda a ”encontrar uma cadeira confortável e uns bons auscultadores, fechar os olhos e partir para a viagem.”

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