Mung Music – Eunyoung Kim / Bauem Sae / SaaamKiiim

A Mung Music é uma editora sul-coreana, sediada em Seul, focada em lançamentos nos domínios do free jazz e da improvisação livre. Tal como se pode ler no Bandcamp do selo “Mung é uma expressão coreana “멍” traduzida aproximadamente como “espaçamento”, um processo durante o qual a nossa mente consciente recua e permite que a nossa mente subconsciente assumam o controle, muito parecido com o processo que acontece na arte da improvisação.”. 

O facto curioso associado ao processo de gravação da editora é o uso de um Tascam 424, um gravador de cassetes de 4 pistas, que confere aos discos um carácter lo-fi, esteticamente bem distante dos prevalentes métodos de gravação de alta-definição modernos. Deste modo, como (orgulhoso) detentor de um dos precursores deste equipamento de gravação, o Tascam 246, fiquei imensamente curioso em explorar os lançamentos desta editora. Assim, e para além desta ligação emocional à sonoridade lo-fi, aliou-se o facto dos meus conhecimentos da cena jazzística e de improvisação sul-coreanos serem bastante escassos, motivos que, no seu conjunto, fizeram com que navegasse com interesse por alguns dos mais recentes lançamentos da Mung Music. Deste modo, foi com espanto, mas com sincero agrado, que pude verificar e concluir que a música de improvisação livre da Coreia do Sul está viva e recomenda-se. Ah! E quase que me esquecia de referir: todos os (bonitos) artworks dos lançamentos da Mung Music são da autoria do seu fundador, Sunjae Lee, também ele músico (saxofonista) e compositor. Viajemos então para o este da Ásia para passar a pente fino os três últimos lançamentos da Mung Music…

Eunyoung Kim – Earworm

Após um percurso onde começou por estudar violino e piano clássico, Eunyoung Kim virou-se para o jazz aquando do seu ingresso na universidade, momento que marcaria o início de uma viajem pelo mundo para estudar música: passou pela Dongduk University, a Berklee School of Music e pelo New England Conservatory. Finalmente, após terminar os estudos, em 2013, Eunyoung Kim regressou à Coreia do Sul para prosseguir a carreira como pianista, tendo desde então colaborado nos álbuns do Sungjae Son’s Trio e em projectos como o Road to Home dos Three Quartet. Já mais recentemente, em 2018, editou o seu disco de estreia, Silent Child, um álbum integralmente formado por composições originais. Para além desta faceta de compositora e intérprete, Eunyoung Kim é também activa como improvisadora, tendo recentemente lançado Pulse Theory, uma edição da Ghettoalive Records, trabalho que consiste numa sessão de improvisação livre gravada juntamente com o saxofonista Sunjae Lee o baterista Dayeon Seok.

Neste Earworm – um registo gravado espontaneamente e ao longo de um par de horas, em Julho de 2020 -,  a pianista apresenta um solo de improvisação na interface entre o jazz e a música clássica onde explora sonoridades de uma riqueza técnica e criativa apenas acessível a grandes músicos. A abundância técnica e estilística de Eunyoung Kim é aqui expressada em vários dimensões: o treino clássico que a condicionou está visivelmente espraiado na sua técnica, sendo que as suas competências jazzísticas são mais visíveis através do carácter improvisativo da gravação.

Dada a profundidade musical de Earworm, facilmente poderíamos colocar este disco ao lado de icónicos solos de piano: amiúde sentem-se laivos do gosto pela dissonância abundante no Open to Love de Paul Bley ou, para referir um exemplo mais recente, da fusão jazz-clássica presente no Promontoire de Benjamin Moussay. Em termos estéticos, várias faixas de Earworm são tudo menos melodiosas, com devaneios turbulentos e tempestuosos que nos remetem para as composições de Feinberg ou, até mesmo, Scriabin (ouça-se, por exemplo, os temas III, V ou IX). Já noutros temas, Eunyoung Kim pinta oníricas e meditativas paisagens, reminiscentes, por exemplo, de um Arborescence de Aaron Parks, aqui reimaginado num registo mais lo-fi. Nestes temas predominantemente contemplativos, a pianista não só abre espaço para nos familiarizarmos com o silêncio, como também adensa a atmosfera emocional do disco, deixando de parte as exuberâncias técnicas para incursionar por territórios esteticamente mais profundos e humanos. São exemplos desta musicalidade as faixas II,  IV ou  VI.

Earmworm não deixa lugar para dúvidas: Eunyoung Kim é, não só, uma pianista de uma enorme sensibilidade estética, como, também, de uma estrondosa capacidade técnica que deliciará qualquer ouvido atento. O uso de uma abordagem mecânica e, até certo ponto, agressiva e percussiva a que a pianista, por vezes, recorre ao longo da improvisação, é contraposta por momentos de um encanto musical de beleza extrema, dois pólos distintos que conferem a este álbum uma dinâmica que demonstra o vastíssimo reportório interior de que Kim é detentora. Assim, Earworm é um maravilhoso solo para piano que, indubitavelmente, merece um reconhecimento maior. Um álbum vivamente recomendado e que guardarei nos meus favoritos solos de piano deste ano.

Bauem Sae – Embrace

Bauem Sae – nome coreano que em português se traduz por Pássaros da Noite – é um projecto formado pela baterista Soojin Suh, a vocalista Borim Kim, e pela tocadora de geomungo – um instrumento de cordas coreano – Gina Hwang. Soojin Suh e Borim Kim são colaboradoras frequentes do Near East Quartet, um grupo reconhecido internacionalmente pela sua fusão singular de jazz contemporâneo com música tradicional coreana e que, inclusive, em 2018, editou um álbum pelo selo da alemã ECM. Neste Embrace – registo que marca a estreia do trio -, os Bauem Sae apresentam uma gravação de curta duração que conta apenas com três temas. Assim, ao longo de pouco mais de 12 minutos, o trio embarca numa cerimónia hipnótica que mescla composições originais com improvisações de grupo, dando origem a um trabalho de estética tão experimental como tradicional.

A faixa de abertura, “여름” (Verão), é um hipnótico ritual que se inicia com Borim Kim a acentuar os tempos fortes, constratados pelo geomungo de Gina Hwang que se encarregou da sincopação. A percurssão entra, depois, em cena, e a voz acaba por assumir um registo mais melodioso para coroar, assim, aquele que, para mim, é o melhor tema do EP. “화” (Raiva) é um pansori, um tipo de música tradicional coreana onde uma narrativa musical é contada com recurso à voz e bateria. Por fim, o EP termina com “가느다란 선” (Linha Fina), um tema prevalentemente textural que nos transporta para uma paisagem oriental carregada de mistério, com a voz de Borim Kim a servir-se, frequentemente, da expressividade do kkeogneunmok. Globalemente, Embrace consegue ser um registo diferente pela fusão que apresenta apesar de, no entanto, sentirmos que a sua duração poderia ser mais longa…

SaaamKiiim – Ma-chal

Ma-chal é o álbum de estreia do trio electroacústico de improvisação SaaamKiiim, anteriormente conhecido por Sonor Project, um grupo composto por uma formação bastante particular: para além da convencional bateria e percussão, que estão ao comando de Sun Ki Kim, o trio apresenta uma instrumentação onde o tradicional e o moderno se fundem em todo o seu esplendor: se, por um lado, temos Yeji Kim no haegeum, um instrumento cordofónico tradicional da música coreana tocado com arco e que remonta, pelo menos, ao século XII, por outro, temos Dey Kim na electrónica, tecnologia que foi a maior invenção musical do século XX e da qual a democratização alterou por completo a banda sonora deste novo milénio. O registo aqui apresentado surgiu de improvisações guiadas, nas quais foram usados temas e motivos criados em concertos anteriormente realizados pelo trio. Assim, apesar das sequências definidas previamente à gravação serem de difícil identificação ao longo do álbum, já a improvisação e experimentação, essas, são a palavra de ordem.

Tal como referido em notas de apresentação, em Ma-chal é intenção do trio “romper com as três componentes da música – harmonia, melodia e ritmo”. E é exactamente esse tipo de premissa que os SaaamKiiim apresentam neste registo que é, indiscutivelmente, mais uma experiência cénica do que propriamente uma experiência musical. Digamos que a sua audição será mais certeiramente descrita como uma experiência de banda sonora de filme, isto porque sem harmonia, melodia e ritmo, tudo o que nos resta são texturas desconfortáveis, percussão pulsante, electrónica áspera e experimental, granularidades inquietantes, rugosidades arrepiantes. Após esta descrição, o título do álbum (Fricção, ou Ma-chal, em coreano) torna-se mais inteligível: fisicamente podemos imaginar uma situação ideal, sem fricção, que ocorre quando duas superfícies completamente lisas deslizam uma sobre a outra. Ora, claramente, os membros deste ensemble são tudo menos “lisos”, sendo a forma atritada como interagem que despoleta um conjunto único de sensações, específicas de cada tema, aqui expressas como fricções que são modeladas “através do movimento do som e da energia”. No total são 4 as faixas que compõem Ma-chal, cada uma invocando um ambiente específico que é, até certo ponto, definido pelo próprio título: em “Pointy Ma-chal” a electrónica de Dey Kim é lancinante e perfurante, o haegeum de Yeji Kim produz sons animalesco de forma ofegante, e a percussão de Sun Ki Kim complementa a atmosfera com interjeições e onomatopeias; já “Moist Ma-chal” é uma improvisação suave e escorregadia, com sonoridades que nos fazem imaginar todo o tipo de movimentos e interacções com líquidos, e onde escutamos desde gotas a cair a fluxos turbulentos; ademais, em “Creepy Ma-chal“ experienciamos, talvez, a mais sombria e assustadora de todas improvisações: ouvem-se simulações de ecos de vozes perdidas, gritos de desespero e sofrimento, almas penantes que vociferam no purgatório; por fim, é, curiosamente, no último tema, “Ma-chal of Ma-chal of Ma-chal”, que se escutam as únicas reminiscências de musicalidade do disco, com a bateria a assumir um papel mais rítmico e ordenado, a electrónica numa aleatoriedade paradoxalmente mais familiar, e com o haegeum, esse, a não ceder à ortodoxia, continuando alheado na sua senda abstracta e experimental. Devido a estas características, Ma-chal é uma experiência sónica que não será para todos os ouvintes, não deixando, devido a isso, de ser, no entanto, uma inusitada, mas interessante viagem por estranhas e sinistras frequências.

João Morado

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