Marcos Cavaleiro – Sete

Marcos Cavaleiro é um dos bateristas mais conhecidos da cena jazzística portuguesa: é comum estarmos a ouvir um disco novo, focarmos a nossa atenção na sua contracapa, e, ao lê-la, já sem qualquer espanto, depararmo-nos com o seu nome na lista de recursos humanos que dele fizeram parte. Tão frequente requisição dos seus serviços deve-se, obviamente, às excepcionais qualidades interpretativas e performativas do baterista, qual metrónomo humano que não apresenta qualquer dificuldade em adaptar-se aos mais variados estilos e dinâmicas do jazz. Menos (re)conhecidas, porventura, serão as suas valências de compositor, as quais são demonstradas perfeita e implacavelmente neste Sete, um disco onde Cavaleiro se apresenta como líder de banda e que marca a sua estreia em nome próprio. 

Em Sete – registo nascido no contexto de uma residência que ocorreu durante a 9ª edição do Festival Porta-Jazz -, Cavaleiro reúne um elenco de excelência, apresentando-se ao lado dos portugueses João Guimarães e José Pedro Coelho, nos saxofones alto e tenor, respectivamente, de João Grilo na electrónica, André Fernandes na guitarra eléctrica, e, por fim, do sonante nome do contrabaixista norte-americano Thomas Morgan, colaboração que consolida o incentivo às parcerias internacionais por parte do selo que editou o disco – o Carimbo Porta-Jazz. 

Em notas de apresentação, Cavaleiro afirma que Setesurgiu da [sua] relação com os dias da semana e, de como a energia de cada lugar e da sua gente, os torna tão diferentes” – antecipa-se, portanto, um disco moody, com altos e baixos a modelar as dinâmicas que integram o quotidiano, e com uma energia que flui natural e espontaneamente, expressão da inevitabilidade e imprevisibilidade da nossa interacção com o mundo. 

Assim, é num tom lânguido e nostálgico que Sete se inicia em “1”, um tema em quarteto dominado pelo diálogo entre os saxofones de João Guimarães e José Pedro Coelho, subtilmente acompanhado pelas intervenções de Cavaleiro e Morgan. Já em “2” sente-se que a nostalgia da anterior composição é coisa do passado: o ambiente torna-se, gradualmente, leve e jubiloso, com o walking bass de Morgan a estabelecer a cadência do tema juntamente com Cavaleiro, que definem uma matriz rítmica que é adornada pelo redondo e setífero som da guitarra de André Fernandes, o interlocutor desta peça, papel que, por sua vez, é atribuído na parte final do tema ao saxofone tenor de José Pedro Coelho. “3”, composição de João Guimarães para trio, eleva o estado anímico da jornada: a secção rítmica acelera e o saxofone discursa com fulgor e liricismo, havendo ainda direito a uma interessante dança entre Cavaleiro e Morgan, que dão forma a um belo interlúdio. Por outro lado, em “4” vivencia-se uma atmosfera exploratória mas cautelosa, como que cuidadosamente escolhendo o próximo passo a dar sem que isso iniba o embarque na descoberta, atitude pontuada pela intervenção de Fernandes. “5”, ironicamente para quinteto, é talvez o tema mais pujante e pesado de todo o registo: começa com riffs de guitarra eléctrica aos quais se sobrepõem os saxofones, ora individualmente, ora entrelaçados; já a bateria, essa, assume o registo mais rock de todo o álbum, facto que não oclui momentos de oportuno e exímio comping; escuta-se ainda um enérgico solo de Fernandes, ligeiramente distorcido, que abre, assim, caminho para a investida final. Em “6” experiencia-se um cíclico acumular e libertar de tensão, dinâmica nunca resolvida na totalidade, como uma trajectória por uma acidentada paisagem que, paulatinamente, se vai tornando mais favorável. Por fim, “7” – um tema composto e guiado pela electrónica de João Grilo – termina esta viagem num ambiente sonhador e sideral: é um convite à meditação, à contemplação e ao descanso.

Como mero exercício, é interessante tentar fazer a correspondência entre os dias da semana e os números atribuídos por Cavaleiro a cada um dos temas. A este respeito, penso que o autor decidiu por não complexificar a questão: “1” parece-se tanto à segunda-feira, como “7” ao domingo – evidência da expressividade identitária das composições, com as quais é possível estabelecer uma ligação emocional. Se há algo a reter sobre Sete é a excelência da viagem proporcionada – mais uma grande adição ao formidável catálogo do Carimbo Porta-Jazz! -, que flui de forma tão suave que, quando nos apercebemos, já terminamos a sua audição. Oxalá todas as semanas fossem assim!

João Morado

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