Cooper-Moore & Stephen Gauci – Conversations Vol. 1

Conversations Vol. 1,  tal como o nome poderá indiciar, é a primeira parte de uma conversa, repartida por dois volumes – ambos a serem editados pela etiqueta da 577 Records -, protagonizada pelo pianista Cooper-Moore e o saxofonista Stephen Gauci. O percurso de ambos cruzou-se em Nova Iorque, cidade onde desenvolveram o seu duo através de actuações semanais numa residência de sete meses na Happylucky No.1 Gallery, em Brooklyn. A história deste dois veteranos na cidade que nunca dorme já não é de agora: Cooper-Moore esteve ligado à era do NYC Loft Jazz – cena avant-garde dos anos 70 -, ao passo que Stephen Gauci chegou a Nova-Iorque em 2000 para indelevelmente deixar a sua marca.

O contexto no qual a criação deste disco se insere é, em notas de lançamento, perspicazmente descrito por Gauci: “Uma tarde em Nova Iorque; viagem de metro a partir de Brooklyn, café para levar, uma fatia de pizza de 1 dólar, e uma sessão de gravação às duas da tarde com um dos melhores pianistas/improvisadores vivos do mundo [Cooper-Moore]. No estúdio são trocadas gentilezas; ‘o tempo está bom’, ‘malditos metros’ … Mas quanto, além do óbvio, pode ser expresso com meras palavras?”. Claramente, se as palavras não são o forte do duo, a sua expressão musical é exímia e articulada, tal como se comprova ao longo da audição do disco.

Assim, é neste contexto citadino – e, até mesmo, rotineiro e banal – que, imersos no frenético e urbano ambiente nova-iorquino, os elementos se alinham para dar início a uma memorável sessão de improvisação livre, materializada num diálogo a dois em que é, desde cedo, claro que o objectivo não é a forma do discurso, mas o seu conteúdo: para expressar o que mais de real e verdadeiro tem a dizer, o duo desprovem-se de embelezamentos estéticos; assim, implacavel e pragmaticamente, Cooper-Moore e Gauci abordam o cerne da questão, escusando-se de delicadezas e regras de etiqueta, tão amiúde desinteressantes e desviantes do que é nuclear, processo que resulta num disco de free jazz, as raw as it can get, in your face, brutal e sem rodeios.

As duas primeiras improvisações são marcadas pela percuciente e mecânica abordagem de Cooper-Moore ao momento, que explora repetitivos motivos ao comando das teclas, acompanhado por um igualmente lancinante saxofone, menos circular e mais libertino, muitas vezes sujo, granular e gutural, outras vezes contundente e estridente, percorrendo todo o espectro que vai de Sanders a Brotzmann. O estado anímico do duo perde alguma vitalidade no final da segunda improvisação, disposição que é transportada para “Improvisation Three”, onde o piano toma as rédeas da viagem, refreando o ímpeto  do saxofone e limitando, assim, o seu espaço de acção. A quarta improvisação é um exemplo de uma estrutura de “pergunta-resposta”, com o piano, em tom misterioso e inquisitivo, a questionar incessantemente o saxofone, que lhe retorque de vários ângulos e com diversos argumentos. O pináculo da conversa é atingido na quinta improvisação, uma gravação de quase 12 minutos, onde o momento do grupo flui impecavelmente, dando sinais de uma simbiose perfeita que os permite explorar várias temáticas e emoções. Já no término da sessão, em “Improvisation six”, vislumbramos a única improvisação estruturada à volta de uma melodia, e que origina um momento que chega mesmo a ser belo, cheio de candura e paternalismo, como que a amortecer e a aligeirar o baque provocado pelas anteriores divagações. Desta feita, este tema, recorrendo às ideias de Houllebecq, pode ser considerado não apenas uma forma de poesia, mas sim de poesia trágica, adjectivo cirurgicamente adicionado de modo a não conferir uma “carga de ligeireza e evanescência” ao momento. 

Depois de um primeiro volume de uma riqueza discursiva inegável, resta-me esperar, com assaz interesse, pelo segundo.

English

Conversations Vol. 1, as the name might indicate, is the first part of a conversation, divided into two volumes – both to be edited by the label 577 Records -, starring pianist Cooper-Moore and saxophonist Stephen Gauci. Both musicians crossed paths in New York, where they developed their duo through weekly performances in a seven-month residency at the Happylucky No.1 Gallery in Brooklyn. The story of these two veterans in the city that never sleeps is not new: Cooper-Moore was connected to the NYC Loft Jazz era – the avant-garde scene from the 70s -, while Stephen Gauci arrived in New-York in 2000 to indelibly leave his mark. 

The context in which the creation of this album occurred is described in its liner notes by Gauci: “A New York City afternoon; Subway ride from Brooklyn, coffee to go, a slice of $1 pizza, and a 2 pm recording session with one of the world’s greatest living pianist/improvisers. At the studio pleasantries are exchanged; “nice weather”, “damned subways” … But how much beyond the obvious can be expressed with mere words? ”. Clearly, if words are not the duo’s forte, their musical expression is exquisite and articulate, as evidenced throughout the album.

It is in this routine and banal city context that, immersed in the frenetic and urban New York environment, the elements align themselves for the beginning of a memorable session of free improvisation, materialized in a dialogue for two in which it is clear, from the start, that the objective is not the form of the discourse, but rather its content: the duo’s aim is to express realness and trueness; so, relentlessly and pragmatically, Cooper-Moore and Gauci approach the crux of the matter, excusing themselves of delicacies and rules of etiquette, so often uninteresting and deviant from what is nuclear, a process that results in a free jazz, as raw as it can get, in your face, brutal and bluntly record.

The first two improvisations are driven by Cooper-Moore’s percussive and mechanical approach to the moment, which explores repetitive motifs at the command of the keys, accompanied by an equally piercing saxophone, less circular and more libertine, often dirty, granular and guttural, other times blunt and strident, spanning the entire spectrum from Sanders to Brotzmann. The duo’s mood loses some vitality at the end of the second improvisation, a vibe that is carried over to “Improvisation Three”, where the piano takes the reins of the journey, curbing the saxophone’s momentum and thus limiting its space for action. The fourth improvisation is an example of a “question-answer” structure, with the piano, in a mysterious and inquisitive tone, constantly questioning the saxophone, which retorts to it from various angles and with different arguments. The pinnacle of the conversation is reached in the fifth improvisation, a track of almost 12 minutes, where the momentum of the group flows impeccably, giving signs of a perfect symbiosis that allows them to explore various themes and emotions. At the end of the session, in “Improvisation six”, we glimpse the only improvisation structured around a long-lasting melody, and which originates a moment that is beautiful, full of candor and paternalism, as if to soften and lighten the blow caused by the previous ramblings. This track, using the ideas of Houllebecq, may be not only considered as a form of poetry, but rather as a form of tragic poetry, an adjective surgically added so as not to confer a “load of lightness and evanescence” to the moment.  

After a first volume of undeniable discursive wealth, I am eagerly waiting for the second one.

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