Smeik Records – Mike McCormick / Pat / We Are

A Smeik Records é uma editora noruguesa que surge no contexto da forte tradição de jazz e música de improvisação dos paisés nórdicos. Com lançamentos que vão do jazz à música contemporânea, a editora tem vindo a editar, desde Dezembro 2018, um ecléctico conjunto de músicos e bandas, contando já com 8 edições no seu catálogo. A qualidade e diversidade dos lançamentos da Smeik não poderia deixar de merecer a minha atenção. Aqui ficam as minhas críticas aos discos que, até à data, a editora lançou em 2020.

Mike McCormick – Proxemic Studies: Volume I

Neste seu álbum de estreia como líder de banda – Proxemic Studies: Volume I -, o guitarrista canadiano Mike McCormick, residente em Oslo, apresenta um conjuntos de temas que exploram várias manifestações do seu lado mais íntimo e pessoal. Interessantemente, a produção do disco está envolta numa curiosa história que envolveu, inicialmente, a criação, por parte de McCormick, dum conjunto de estudos técnicos para guitarra eléctrica – usados como forma de ultrapassar as suas limitações performativas -, que, posteriormente, foram mesclados com textos de cartas, e-mails e mensagens, por ele guardadas e que haviam sido enviadas a pessoas com quem teve relações amorosas. Este é, portanto, um disco profundamente íntimo e introspectivo, atmosférico e emotivo, onde o guitarrista examina os “espaços” emocionais criados na sua vida juntamente com Laura Swankey na voz, Emily Denison no trompete, e Knut Kvifte Nesheim na bateria e vibrafone. 

De natureza pessoal e introspectiva, Proxemic Studies: Volume I pode ser visto na perspectiva de uma viagem pelos meandros do leque de emoções primárias – o medo, a tristeza, a raiva, o nojo, a surpresa e a alegria -, que nós, seres humanos, experienciamos ao longo da nossa vivência. Em notas de apresentação, denota-se que as composições “são reflexões intensamente pessoais sobre a intimidade humana que descreve a beleza descarada do amor incondicional, a amargura do coração partido, e a volatilidade da paixão.” Assim, Proxemic Studies: Volume I é toda uma exploração da emocionalidade humana, que é aqui coberta por um manto de beleza poética, onde se sentem elementos de rock – ouça-se, por exemplo, “Madness”, o tema mais agressivo do disco, onde sentimos a revolta que surge com a mentira -, e onde, prevalentemente, o jazz se mistura com a música contemporânea para formar uma densamente emotiva estética sonora. Uma menção especial vai para o tema “Alvorada” que, com um título tão português, pinta um calmo despertar: o erguer da húmida e opaca neblina – símbolo do mistério e da inconsciência – gradualmente substituída pelo fosforescente sol matinal – símbolo de vida e potência -, que nos dá força para enfrentarmos as surpresas e as ansiedades que o dia nos trará. 

Proxemic Studies: Volume I é uma curiosa obra, cabalmente criativa e original, resultado dum processo de composição pouco convencional e ortodoxo, e que apresenta uma interessante narrativa que prova que mesmo rotinas que são, à partida, tão vulgares e monótonas como exercícios técnicos para guitarra, podem servir de base à criação artística e musical, quando fundidos com memórias de densidade emocional elevada. Uma lição a reter.

Pat – Supergolden

Supergolden é o álbum de estreia do contrabaixista e compositor Petter Asbjørnsen, que aqui se apresenta com o trio Pat, formado em conjunto com o saxofonista Kjetil Møster e o baterista Øyvind Skarbø. Møster e Skarbø são proeminentes figuras da cena jazz norueguesa, conhecidos por projectos como Zanussi 5, 1982, Skarbø Skulekorps, Møster! e a Trondheim Jazz Orchestra (orquestra em que também participa a trompetista portuguesa Susana Santos Silva). Já Asbjørnsen – que tem o seu nome associado a projectos e músicos como Molecules + Erlend Skomsvoll, Thomas Dahl, Elias Stemseder, Emilio Gordoa, Dag Magnus, Narvesen e Axel Dörner -, apresenta-se em Supergolden como líder de banda, este que é um disco quente, em pleno contraste com a fria cidade de Bergen, berço do trio e local de gravação do disco, onde Asbjørnsen tem um papel activo na comunidade de músicos.

Supergolden é um disco interseccional, com influências que vão do tradicional bebop à improvisação livre e não idiomática. Assim, não sendo um trabalho de puro free jazz, tem, amiúde, interessantes momentos de improvisação totalmente livre que despoletam das linhas melódicas e estruturas rítmicas das suas composições. Ademais, é interessante a notória intencionalidade de intercalar conjuntos de enérgicas e vigorosas composições, criadoras de ímpeto e tensão, com temas reflexivos e contemplativos, que dão espaço e tempo ao ouvinte: uma estrutura que confere um atractivo e dinâmico carácter de narrativa prosaica ao álbum.

“Heritage” funciona como uma chamada de atenção, com o trio, ainda a meio gás, a preparar terreno, focando-se no motivo melódico que tanto inicia como termina o tema, intercalado por uma improvisação colectiva, ora explosiva e tempestuosa, ora calculista e delicada. “Creel” eleva a parada, com uma sonoridade reminiscente do período avant-garde de Albert Ayler. “Driftwood” é uma composição textural, onde a musicalidade é retida pela intervenção de Møster. “Warehouse” segue a mesma linha igualmente distante e reservada. O tema homónimo, “Supergolden”, e o seu sucessor, “Scheme”, recuperam em crueza, dinamismo e improvisação a energia potencial acumulada nas duas anteriores composições. “Riot” é um exemplo da tradição bebop a que o trio também recorre, com a secção rítmica a swingar a base que permite que o saxofone leve avante o seu motim através da modelação de um discurso livre e efusivo. Em “Paternity” é retomada a premissa textural presente em temas como “Driftwood” ou “Warehouse”. Por fim, o álbum termina com “Mildly Frazzled”, um tema em aberto, como que uma mensagem de que, por agora, o trabalho está feito – mais, no futuro, virá.

Supergolden, sem ser disruptivo dos cânones, é um álbum bastante consistente e que engloba ecléticas influências de vários géneros do domínio jazzístico. Com interpretações de elevada qualidade que o tornam um prazer de se ouvir, este é, portanto, uma excelente estreia para Petter Asbjørnsen e para os Pat.

We Are – How 2 ❤

Os We Are são um trio norueguês, com raízes em Oslo, formado por Karl Hjalmar Nyberg (saxofone e teclas), Aaron Mandelmann (contrabaixo) e Axel Skalstad (bateria). Apesar de ainda serem jovens, são já figuras de relevo na cena jazz norueguesa, conhecidos por projectos como Megalodon Collective, Krokofant, Kalle e a Trondheim Jazzorchestra. Em How 2 3> – o seu primeiro trabalho de longa-duração como banda -, apresentam 9 temas, a maioria dos quais compostos por Nyberg, com contribuições Mandelmann e Skalstad. 

How 2 3> é um trabalho que agradará mesmo a ouvintes tradicionalmente fora da esfera do jazz: é um álbum cheio de cor e dinâmica, chegando a ser mesmo divertido, com temas de energia contagiante, outros lânguidos e arrastados, e influências que vão do free jazz ao prog rock. As suas composições estão repletas de melodias cativantes, facilmente memorizáveis, intercaladas com momentos de espontânea e criativa improvisação, ingredientes que quando misturados alargam o espectro de possíveis ouvintes – e meritoriamente, porque é um álbum fantástico – e que facilmente instigam uma plateia a dançar ou a mover-se a seu comando.

Depois de abertas as hostes com “Intro”, o trio avança para o tema homónimo, “How 2 3>”, uma composição perfeita para definir o ambiente e humor de uma plateia, com uma cadência com reminiscências do surf rock dos anos 60, e onde o saxofone brilha com fulgor. Já em “We are” – uma balada épica comandada pelas teclas – mergulhamos num universo de prog rock, que nos transporta para os 70s, bem para o centro do universo psicadélico de King Crimson e Gentle Giant. “Kattguld” é temperado a especiarias orientais, que conferem uma camada de misticismo ao tema. “Rio” constrói-se à volta de um mesmo padrão melódico que é reinventado e desagua em momentos de livre improvisação. “A” abre espaço para respirar e digerir a intensidade desta experiência, repondo a calma à, até agora, frenética viagem. “Yafo” progride a meio trote, num tom dreamy e semi-épico – uma mensagem de esperança! Por fim, “Nettbuss” e “Rooster My Dear”, com uma premissa prevalentemente jazzística, mas também com incursões por domínios mais livres e progressivos, terminam o disco em grande, com pujança e frescura, coroando um trabalho que delícia os ouvidos de qualquer melómano.

Em How 2 3> os We Are conseguem, de uma forma despreocupada e original, mesclar estruturas rítmicas complexas com cadências arrastadas, surf rock com improvisação livre, jazz com prog rock. O resultado final é altamente recomendável e, certamente, deixará qualquer um com vontade de os ver num espetáculo ao vivo.

João Morado

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