Zeñel – Extreme Sports

Os Zeñel são um jovem trio formado pelo baterista Zoe Pascal, o teclista Noah Stoneman e o trompetista Laurence Wilkins, que se conheceram na cena jazzística de jovens de Londres, uma autêntica e prolífica incubadora de novos talentos. Assim, apesar da tenra idade (começaram a tocar juntos com 14 anos, em 2016), já são portadores de um currículo notável, com actuações em diversos festivais (por exemplo, o Love Supreme Festival) e célebres casas de jazz, tais como a Ronnie Scott’s onde assumiram o papel banda de suporte ao grupo de hip-hop Ghost Note. Desta forma, o trio apresenta-se no legado de uma geração de artistas do jazz britânico que, se alguma coisa lhe confere, é a responsabilidade de não comprometer, tão elevada é a fasquia a que o género se elevou na ilha britânica. Porém, desprendidamente e seguros de si, os Zeñel incubem-se desta tarefa com toda a confiança e assertividade, mostrando-se ao mundo com “Extreme Sports” – o seu álbum de estreia -, este que é, indubitavelmente, um registo a que se deve prestar atenção pela forma refrescante como, através da aplicação de improvisação a um setup baseado em MIDI, fundem o jazz com a electrónica.

Uma onda sintetizada de baixas frequências a definir a cadência; a bateria a entrar de rompante, energética e destemida mostrando que não há tempo a perder; o trompete que, após um breve reconhecimento do terreno, inicia a ascensão para uma dimensão sideral – assim começa “Intro”, um tema que nos avisa imediatamente do  dinamismo a que seremos expostos ao longo de 7 faixas. De supetão, chegamos a um espaço etéreo, onde as teclas desenham uma delicada melodia digna de ser samplada por um produtor de beats lo-fi. Curiosamente, é nesta introdução que os Zeñel mostram a sua faceta mais delicada, num claro sinal de que apenas estavam a ligar as máquinas desta nave que se prepara para viajar ultrassonicamente por entre galáxias desconhecidas. É então que, numa referência a Stars Wars, em “Ewok dance”, nos apercebemos que o trio não só consegue ultrapassar a velocidade do som mas também a da luz – quebrando toda e qualquer inviolável regra da física -, pois acabámos de retroceder umas décadas para a golden age do afrobeat, com Wilkins a mascarar-se de Fela Kuti, Pascal a vestir a pele de Tony Allen e, já agora, Stoneman a reencarnar no corpo de Dele Sosimi. Este é um tema cheio de groove e energia, envolto num manto de futurismo que é transversal a todo o álbum. Já em “Bubbleleaves” o grupo aborda um motivo melódico conduzido pelas teclas de Stoneman e adornado pelo trompete que, interessantemente, é processado de uma forma que lembra a abordagem de Sam Gendel ao saxofone em “Satin Doll”. Há direito, claro, a interlúdio espacial, antes de, por fim, o trio regressar ao motivo de partida. “Zozo is zozo/The Curse” é um exemplo perfeito do caleidoscópio sonoro que os Zeñel conseguem ser: se começa com um kick que anuncia que acabámos de entrar num club de techno, rapidamente nos apercebemos que, afinal, estes drops de EDM nos soam a um qualquer outro universo electrónico; ademais, estas linhas progressivas de baixo (tocado pelo piano) não pertencem aqui, remetendo-nos para um gig de Meshuggah, bem longe da cena club onde nos encontrávamos inicialmente; bem, agora é certo, não estamos em clube nenhum, já fui a todos os Fabrics e Ministry of Sounds desta vida e em nenhum deles vi um trompete a tocar assim; por fim, qual cereja no topo do bolo, que breakdown digno dos tempos áureos do nu metal dos anos 90 é este que finda o tema? Pode parecer uma mescla sem qualquer nexo mas, na verdade, faz todo o sentido. “Bi” cresce por entre grooves sincopados – onde, se Wilkins assume a liderança da melodia, Pascal meticulosamente preenche os espaços em brancos -, que abrem caminho para uma fabulosa viagem guiada pela mão direita de Stoneman que, com um fantástico solo a fazer lembrar a estética sonora do seu par Joe-Armon Jones,  protagoniza o seu melhor momento de todo o registo. “Process Z” é, certamente, o tema do disco com maior agressividade, ou não tivéssemos iniciado esta viagem com o intuito de praticar “Extreme Sports”, dando espaço para que Pascal exibida todo o seu talento e rigor técnico. Por fim, “Treehouse People” é um tema de génese pop, com energia e vigor para pôr toda uma plateia euforicamente aos saltos.

Se a fusão do jazz com a electrónica não é uma abordagem nova na capital inglesa, com bandas como Comet is Coming, comandada por King Shabaka, ou os vários projectos de Moses Boyd a serem exímios exemplos da qualidade a que se pode elevar esta estética sonora, é bastante interessante ver a roupagem nova com que um trio tão jovem veste este tipo de sonoridade. Acima de tudo, a proposta dos Zeñel é refrescante, não só pela forma como homenageia os seus antecessores mas também pela impressionante maturidade e autenticidade que transparece. Além disso, é igualmente reconfortante saber que o passarinho da new wave do jazz britânico já se tornou um adulto e que, entretanto, adquiriu a força e maturidade necessárias para trazer no bico alimento para toda uma nova geração de artistas que procederão à sua renovação. Claramente, a julgar por este disco, estaremos bem entregues!

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