¡GOLPE! + Masa Kamaguchi – Totem

Os ¡Golpe! – duo lisboeta formado pelo trompetista Gonçalo Marques e o baterista João Pereira – apresentaram no início de Junho “Totem”, o seu terceiro disco (segundo de 2020), em que se juntaram ao contrabaixista japonês Masa Kamaguchi. Esta colaboração vem na sequência de outras anteriores em que o duo também se aliou a diferentes músicos: em 2019 haviam lançado “Puzzle” colaborativamente com o pianista Jacob Sacks e, em Março deste ano, lançaram “Tundra”, disco em que se apresentaram com o guitarrista André Matos – todos eles lançamentos com etiqueta da Robalo, editora que tem vindo a apresentar um eclético catálogo repleto de bom gosto. Focando-nos nos trabalhos que os ¡Golpe! editaram este ano: se, por um lado, em “Tundra” são explorados princípios de espontaneidade e improvisação que resultaram num disco acentuadamente atmosférico e textural, por outro, em “Totem” a proposta apresentada parece diferir do trabalho que o precede. É certo que, obviamente, continuam a existir muitos momentos de improvisação, não fosse este um álbum de jazz! No entanto, parece haver uma certa estrutura previamente delineada – como que uma geometria já definida a priori –, mesmo que apenas em forma de esquisso, e que confere ao disco um carácter mais cénico e melódico. De referir que tal esboço não retira nem organicidade nem autenticidade ao disco; adiciona-lhe, sim, uma camada extra de elegância formal e poética.

O álbum apresenta-se com “Snakes and Ladders” onde, por entre subidas e descidas protagonizadas pelo trompete, são modelados os movimentos deste jogo de tabuleiro ou, qual metáfora da vida, os altos e baixos desta, ora doce, ora amarga, com momentos de apatia (ouça-se o letárgico interlúdio) que servem de força motriz para que se recupere a energia necessária para prosseguir caminho e regressar ao sobe e desce que é a rotina e o quotidiano. “Fake Folk” é uma composição para trompete que conta com uma brilhante interpretação de Gonçalo Marques que, obedecendo a um metálico sinal de partida (que, aliás, também assinala a chegada), se deixa embalar numa jornada reverberante, intercalando suaves ataques com notas longas, tão pacientes de si próprias que adquirem a vibração característica daquilo que se encontra no estado fundamental. Desta forma, “Fake Folk” é quase que um preâmbulo ao tema que se lhe segue – “Chovamos” -, onde o contrabaixo de Kamaguchi prenuncia num tom místico e processional a experiência religiosa que aí advém. O que se segue é digno de todo um ritual xamânico: a percussão tribal, o contrabaixo repetitivo e hipnotizante, o trompete a liderar a dança assumindo a função de sacerdote que celebra a cerimónia tentando invocar – para aludir ao título do álbum – um totem. Ademais, se em “Chovamos” se iniciava o ritual, em “Totem” – tema homónimo do disco – o espíritos foram já invocados e o trio presta-lhes vassalagem à medida que caminha vagarosamente em direcção ao apogeu, consagrado de forma notável pelo solo de bateria de João Pereira. Por fim, depois do êxtase, o ambiente suaviza-se gradualmente, retomando a vibração espiritual característica do início do tema. Já “Casa na árvore” faz-nos regressar a casa: podemos até estar em cima de uma árvore, mas com os pés assentes num universo bem mais sereno e familiar. “All the things you are” é uma composição que vai beber ao tema homónimo de Jerome Kern e que o trio reinterpreta numa estética que nos transporta de volta aos anos 40, mas com pinceladas de sonoridades mais contemporâneas tocadas, principalmente, pelo trompete de Gonçalo Marques. É também de salientar o comping extraordinário de João Pereira ao solo de Kamaguchi, igualmente assinável, que, ao completá-lo de forma tão minuciosa e dinâmica, sempre à procura da batida que falta, não só o eleva a um patamar superior, como acaba por garantir a si mesmo vida própria, abrindo, assim, espaço para que o baterista protagonize o segundo momento a solo deste álbum – e mais houvesse!, porque são uma delícia de ouvir. “Nocturno” é uma reinterpretação (de parte) do noturno no. 20 de Chopin, que aqui se vê despido de romantismo e transportado para um cenário western envolto numa aura de suspense e mistério. Por fim, “Antípoda” fecha o álbum, iniciando-se e terminando com uma conversa entre o trompete e o contrabaixo que é adornada por subtis intervenções da bateria; há também direito a solo de Kamaguchi, que não nos fazendo viajar para o antípoda do que é o resto do disco, faz-nos seguramente focar a atenção na sua sensível interpretação.

“Totem” é mais um exemplo da versatilidade que os ¡Golpe! têm vindo a demonstrar e da sua adaptabilidade e avidez de colaboração com diferentes músicos. Este é um disco quente: ora estamos numa cerimónia religiosa no meio do deserto, ora somos transportados para o faroeste para revisitar Chopin. Para além disso, a atitude colaborativa do duo parece resultar num processo criativo e de trabalho caracterizado por influências e dinâmicas variadas, o que tem propolsionado uma exploração de diferentes domínios sonoros e originado uma miríade de estéticas tão distintas quanto interessantes. Assim, depois de três convidados excepcionais é inevitável questionar: com quem será o próximo lançamento? Uma coisa é certa: quem quer que seja que a eles se junte, o resultado será, com certeza, altamente recomendável.

João Morado

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