Ambrose Akinmusire – on the tender spot of every calloused moment

Ambrose Akinmusire não é apenas um trompetista que nos faz perder o fôlego através da sua música e composição, mas também, amiúde, por meio dos títulos que escolhe para os seus trabalhos. “on the tender spot of every calloused moment” não foi uma escolha que, certamente, teve por base razões pragmáticas e comerciais: a extensão deste título torna-o de difícil memorização; porém, em contrapartida, incorpora-lhe valências de definição e de mistério que se se apresentam, à partida, como diametralmente opostas, veremos, prontamente, que fazem parte de uma mesma unidade. Por um lado,  confere ao registo um maior carácter descritivo e, portanto, definitivo; por outro, a escolha de palavras aguça a curiosidade e adensa o enigma, sobrecarregando-o, assim, de uma dimensão emocional que acaba por se vir a confirmar musicalmente ao longo de todo o álbum. Especificamente, o título refere-se a uma viagem do trompetista, em 2016, à sua terra natal, Oakland, onde testemunhou a deslocação das classes sociais mais empobrecidas como consequência da expansão de Silicon Valley, epicentro mundial da inovação tecnológica. Se na conjectura que serviu de inspiração ao título a questão fracturante era provocada pela forçada deslocação dos mais desfavorecidos devido à dura gentrificação, aquando do lançamento de “on the tender spot of every calloused moment” – editado pela mítica Blue Note em inícios de Junho – o ponto sensível de uma cruel sociedade americana era (e ainda é) a comunidade afro-americana. Desta forma, é evidente que este é um álbum que transborda o universo puramente musical em várias vertentes: tem tanto de música como de filosofia, tanto de emoção como de racionalidade, tanto de esperança como de peremptoriedade, tanto de improvisação como de composição, tanto de jazz como de blues – tudo expressões do que é ser-se humano e, em particular, negro na sociedade americana. 

Acompanhado pelo seu quarteto de longa data formado pelo pianista Sam Harris, o baixista Harish Raghavan e o baterista Justin Brown, “on the tender spot of every calloused moment” abre com “Tide of Hyacinth”, um tema abstracto e, em certos momentos, até intangível, que adquire uma forma mais explícita com a participação de Jesus Diaz que profeticamente canta em yoruba. “Yessss” inicia-se e evolui como uma comovente balada que lentamente se dirige para um apressado fim. “Cynical Sideliners” é uma sensível e espaçada composição para voz e piano (tocada num Fender Rhodes) e que conta com a participação de Genevieve Artadi. “Mr. Roscoe (consider the simultaneous)”, uma referência ao saxofonista Roscoe Mitchell (membro do Art Ensemble of Chicago), é um tema complexo com vários momentos de improvisação sobre uma matriz post-bop. “An Interlude (that get’ more intense)” é movido a linhas cinzentas de contra-baixo que ganham um maior contraste, e até alguma cor, com a entrada do restante quarteto em cena. “Roy”, composto em memória do recentemente falecido Roy Hargrove, é o sucesso do álbum no que toca ao público, possivelmente derivado à sua beleza e simplicidade: baseia-se num ritmo maioritariamente acentuado nos tempos fortes pelo baixo e bateria e que abre espaço à expressividade consonante do piano e trompete. “Blues (We measure the heart with a fist)” são texturas definidas pelo trompete, secos aros de tarola, timbalões ressonantes e notas soltas de piano que se redefinem numa tentativa de responder a uma das perguntas que levou à criação deste álbum e que foi dirigida por Ambrose Akinmusire a Archie Shepp – “O que é o blues?”. O álbum termina com “Hooded procession (read the names outloud)”, um requiem onde Akinmusire troca o trompete pelo Fender Rhodes (tal como em “Cynical sideliners”) para relembrar todos os que perderam a vida na luta pelos direitos civis da comunidade afro-americana.

Mais do que um mero álbum de jazz – que se soma aos já 5 trabalhos lançados pelo trompetista -, “on the tender spot of every calloused moment” é também um registo do significado do blues para Ambrose Akinmusire, o qual é brilhantemente manifestado neste disco repleto de emoção, originalidade, criatividade e novas abordagens sonoras; porém, todavia, a sua singularidade assenta não só nas provocações musicais apresentadas, mas também no profundo manifesto social que este trabalho representa em si mesmo: já percebemos como soa o blues em 2020, mas será que já percebemos qual é o som deste novo mundo?

João Morado

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