Benjamin Moussay – Promontoire

Reflexivo, articulado e visceral, este é o tríptico de adjectivos no qual se pode desdobrar “Promontoire”, o mais recente trabalho do pianista francês Benjamin Moussay, lançado pela editora ECM. Depois de três aclamados álbuns como membro do quarteto de Louis Sclavis – “Sources” (2011), “Salt and Silk Melodies” (2014) e “Characters on a Wall” (2018) -, onde deu provas dos seus recursos técnicos e estilísticos de improvisação, a editora alemã convidou Benjamin Moussay a gravar um álbum a solo, consumado em Janeiro de 2019 nos estúdios franceses La Buissone, e que resultou em “Promontoire”, descrito por Moussay como “uma dança solitária com o nosso fluxo interno”. Este é um trabalho cabalmente íntimo e de difícil definição: não é música clássica nem é jazz, apesar de haver ecos fugazes de ambos os géneros – que, aliás, fizeram parte da formação académica do pianista -, quer na estrutura, quer na interpretação. “Promontoire”, assim nomeado em referência a um local nas Montanhas dos Vosges importante para Moussay, foca-se na improvisação visto que, como descrito pelo pianista, “Pretextos escritos são infinitamente alterados de acordo com o momento”, mote marcadamente patente em diversos temas onde – qual metáfora do fluxo da consciência humana – a estrutura rítmica e melódica se desvanece e reaparece sem que disso estejamos conscientes. Por entre percucientes e ritmados motivos pianísticos, notórios em composições como “Don’t look Down”, “Horses” e “Chasseur de Plumes”, ou paisagens meditativas, melódicas e contemplativas, exploradas em “127, “Villefranque” ou “Sotto Voce”, o autor e pianista conduz-nos por topologias sónicas em que está ciente do ponto de partida e de chegada, porém onde “O mistério reside nas surpresas da viagem.”, denota. Em última análise, “Promontoire” pode ser comparado em termos estilísticos e de processo criativo a álbuns como “Open, to Love” de Paul Bley (1972) ou “Arborescence” de Aaron Parks (2013), ambos trabalhos de poesia instrumental baseados na improvisação individual, espontânea e adaptativa. Não sendo um álbum fácil, este é um registo com momentos suficientemente cativantes para que o convite à atenção do ouvinte para as partes mais intrincadas esteja implicitamente lançado.

João Morado

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